Artigo
Trade eleitoral: quando o mercado compra a promessa e quando cobra a entrega

Segunda-feira, 5 de outubro, 10h40. A Luciana abriu o aplicativo do banco só para pagar a conta de luz. Antes do boleto, porém, apareceu uma notificação: a bolsa subia quase 8% depois do primeiro turno.
Ela tem 45 anos, guarda dinheiro todo mês e deixa quase tudo na "caixinha" do banco. Naquela manhã, o grupo do trabalho no WhatsApp não falava de outra coisa. Um colega postou o print da carteira toda no verde. Outro garantiu que "ainda tem muito espaço pra subir". No meio da conversa, alguém soltou uma expressão que ela nunca tinha ouvido: trade eleitoral.
A Luciana sentiu aquele aperto conhecido de quem acha que chegou atrasada de novo. Então fez o que muita gente fez naquela semana e digitou o termo no Google…
Se você chegou até aqui pelo mesmo caminho, este texto é para você. E já adiantamos algo que pouca gente está dizendo: não existe um trade eleitoral só. Existem três, cada um com um relógio diferente. Saber em qual deles você está (ou se deveria estar em algum) vale mais do que qualquer palpite sobre o dia 25.
O que é trade eleitoral

Trade eleitoral é o nome que o mercado dá às operações montadas para antecipar o efeito de uma eleição sobre ações, câmbio e juros. Em outras palavras, o investidor tenta comprar hoje o cenário que imagina para amanhã, com base em pesquisas, debates e expectativas sobre o próximo governo.
Na prática, esse movimento começa muito antes da votação. Em meados de 2025, uma sondagem do Bank of America com gestores que investem na América Latina já mostrava que 57% deles esperavam ver o trade eleitoral de 2026 começar ainda naquele segundo semestre. Ou seja, quando o assunto chega ao grupo do WhatsApp, os profissionais costumam estar posicionados há meses.
O que aconteceu depois do primeiro turno de 2026
A primeira semana de outubro mostrou, ao vivo, a força de uma expectativa. A última pesquisa Datafolha antes da votação apontava um candidato na liderança; as urnas de domingo (4) colocaram o outro na frente, com diferença inferior a dois pontos percentuais dos votos válidos. Como ninguém passou de 50%, a decisão ficou para o segundo turno, em 25 de outubro.
O mercado reagiu já no pregão seguinte:
o Ibovespa subiu 7,70% na segunda-feira (5), passou dos 200 mil pontos pela primeira vez e registrou a maior alta no primeiro pregão após um primeiro turno entre as sete eleições presidenciais desde 2002;
o dólar caiu 4,12% e fechou perto de R$ 5,00;
os juros futuros recuaram mais de 100 pontos-base, reforçando as apostas de cortes na Selic nos próximos meses.
Só que a história não parou ali. Na terça e na quarta, o índice devolveu 0,52% e 0,74%, num movimento de ajuste. Enquanto isso, a conta dos dois primeiros pregões impressionava: 18 ações haviam subido mais de 20%.
Agora repare num detalhe. Em 48 horas, nenhuma empresa passou a vender mais, a lucrar mais ou a dever menos. O que mudou foi a expectativa sobre o futuro. Por isso mesmo, a pergunta mais útil não é "a bolsa vai subir até o dia 25?". A pergunta certa é: o que, exatamente, o mercado está comprando neste momento?
As três fases do trade eleitoral
Pense em quem compra um apartamento na planta. Primeiro vem a maquete, iluminada no estande de vendas. Depois começa a obra, e você descobre quem é a construtora, quem assina o projeto e qual é o cronograma. Por fim, chega a vistoria: é ali que você confere se a metragem bate, se o acabamento é o prometido e se não há rachadura na parede.
O mercado percorre esse mesmo caminho a cada eleição.
1. Trade eleitoral (curto prazo): o mercado compra a maquete
É a fase em que estamos agora. Os preços oscilam ao sabor das pesquisas, dos debates e das narrativas de campanha. São posições essencialmente especulativas, montadas sobre probabilidades, que tendem a ser desmontadas logo depois que o resultado sai. Afinal, quando a dúvida acaba, a aposta perde a razão de existir.
Além disso, há um ponto pouco comentado: o mercado costuma realizar lucros quando o resultado apenas confirma o que já estava nos preços. Em outras palavras, acertar quem vence não garante ganho para quem entrou tarde.
2. Trade pós-eleitoral (curto e médio prazo): o mercado avalia a obra
Com o presidente eleito, o foco muda. Quem vai comandar a economia? Como será a equipe ministerial? Quais projetos chegam primeiro ao Congresso? O mercado passa a precificar essas sinalizações, ainda sem mudança concreta nos números das empresas. Continua sendo expectativa, só que agora com nomes, prazos e prioridades.
A eleição de 2022 ilustra bem essa etapa. Nos meses seguintes ao resultado, a incerteza sobre a política fiscal e a demora na definição da equipe econômica pesaram sobre a bolsa. Ou seja, a ansiedade não terminou na apuração; apenas mudou de assunto.
3. Trade de fundamentos (longo prazo): a vistoria antes das chaves
À medida que o novo governo implementa suas políticas, a expectativa dá lugar à realidade. Entram em cena dados que não dependem de discurso: inflação, trajetória dos juros, contas públicas, desempenho de cada setor e, principalmente, o lucro das empresas. Nesse estágio, as decisões de investimento passam a se apoiar em mudanças efetivas, e não em promessas.
Vale lembrar o ponto de partida. O Boletim Focus de 5 de outubro projetava IPCA de 5,01% em 2026 e Selic de 13,50% ao ano no fim de dezembro. São números como esses, e não o placar de um domingo, que tendem a definir o valor dos ativos ao longo do próximo mandato.
O que a história da bolsa ensina
Olhar para trás ajuda a separar padrão de euforia. Segundo levantamento da XP com as eleições de 2002 a 2018, o Ibovespa caiu em média 6,7% no semestre anterior à votação e subiu cerca de 5,9% nos seis meses seguintes. Média, no entanto, esconde extremos.
Em 2002, o índice caiu quase 30% nos seis meses que antecederam a eleição e ainda recuou 4,28% no primeiro pregão após o primeiro turno, a única queda nessa janela entre as sete eleições analisadas desde então. No semestre seguinte, porém, subiu cerca de 27%, à medida que os rumos da política econômica ficaram mais claros. O medo foi a expectativa; a recuperação veio dos fatos.
Em 2014, o roteiro foi outro: a bolsa terminou no negativo depois do segundo turno, num ano que marcou o primeiro déficit das contas públicas após uma década de superávits. Mais uma vez, quem deu a palavra final foram os fundamentos.
A lição é simples, embora pouco confortável: um pregão diz muito sobre o humor do mercado e pouco sobre o valor das empresas. Rentabilidade passada, vale reforçar, não é garantia de resultado futuro.

Onde você entra nessa história
O mesmo noticiário chega de forma diferente para cada pessoa. Por isso, antes de pensar em qualquer movimento, vale se reconhecer em um destes três momentos.
Se você já tem uma carteira estruturada
Seu desafio provavelmente não é falta de informação, e sim excesso dela. Nesse caso, o mais útil é separar o que é posição tática do que é estratégia de longo prazo e checar se a carteira ficou concentrada demais em ativos sensíveis ao resultado da eleição, como estatais, setores regulados e câmbio. Uma revisão feita com método, e não com o noticiário aberto ao lado, reduz o espaço para decisões por impulso.
Se você está começando a investir
A sensação de "perdi o bonde" é comum e, sobretudo, enganosa. Boa parte das operações de trade eleitoral em 2026 usa opções, instrumentos em que o investidor pode perder todo o valor pago se o movimento esperado não acontecer até o vencimento. É um jogo de quem tem estrutura para errar. Para quem está saindo da poupança ou da caixinha, o passo mais valioso agora é conhecer o próprio perfil de investidor e o prazo de cada objetivo. Diversificar com calma também é uma forma de se posicionar.
Se o dinheiro ainda não sobra no fim do mês
Aqui a conversa precisa ser honesta: trade eleitoral não é para você agora, e está tudo bem. Antes de qualquer investimento em renda variável, vêm a reserva de emergência e a organização das dívidas. Afinal, a volatilidade de uma eleição machuca mais quem precisa resgatar o dinheiro na hora errada. Neste momento, a melhor posição possível é ter fôlego.
Faça a vistoria antes de decidir
Seja qual for o seu caso, quatro checagens rápidas ajudam a não confundir maquete com prédio pronto:
Expectativa ou realidade? Se a sua tese depende do resultado de um domingo, você está comprando expectativa.
Qual é o prazo desse dinheiro? Uma posição de semanas não combina com um recurso que tem destino daqui a três meses.
Quanto já está no preço? Depois de uma alta de quase 8% em um único dia, parte relevante do cenário pode já ter sido incorporada.
Quanto você aceita perder? Se a resposta for "nada", a volatilidade dos próximos dias não combina com esse dinheiro.
A Luciana, a maquete e o prazo
Lembra da Luciana? Ela não comprou nada naquela segunda-feira. Também não ficou paralisada. Leu, entendeu que estava olhando para a maquete e trocou a pergunta: em vez de "será que ainda dá tempo?", passou a perguntar "para quando eu preciso desse dinheiro?".
A resposta mudou a conversa inteira. O dinheiro da viagem do ano que vem continuou onde estava, com liquidez e sem susto. Já a parte que ela guarda pensando em dez anos deixou de ser decidida pelo grupo do WhatsApp e passou a ter um plano, construído com calma e acompanhamento profissional.
Narrativas podem movimentar preços no curto prazo, mas são os fundamentos que tendem a sustentar o valor dos ativos ao longo do tempo. No mercado financeiro, antecipar cenários é importante. Saber distinguir especulação de fundamento é essencial.
Separe o barulho do que importa
Até o dia 25, cada pesquisa nova vai mexer com os preços. Depois dele, a conversa muda de fase, e é aí que análise com método faz diferença.
Na ZERO Markets Brasil, a gente traduz o mercado sem euforia e sem medo, com análises assinadas por profissionais certificados. Siga a ZERO Markets Brasil no Instagram e no YouTube para acompanhar o segundo turno e tudo o que vem depois dele. E se você quer olhar para a sua carteira com calma, considerando seu perfil e seus prazos, agende uma consulta clicando aqui.
—----------------------------------------------------------------------
⚠ DISCLAIMER:
As opiniões aqui expressas refletem o entendimento pessoal e independente do Diretor de Análise MARCOS FELIPE MARTINS DA SILVA PRAÇA, f, inclusive em relação à pessoa jurídica à qual está vinculado. Este relatório não constitui oferta nem garantia de resultado, e o investidor é o único responsável por suas decisões. A Zero Markets Brasil Consultoria e Análise de Valores Mobiliários LTDA, CNPJ 56.964.932/0001-09, credenciada perante a APIMEC Brasil, declara, nos termos do art. 22 da Resolução CVM nº 20/2021, não haver situação que afete a imparcialidade deste relatório ou configure conflito de interesses, ressalvado o que, se existente, será divulgado no próprio relatório.

