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Bolsa de valores hoje: o que o mercado comprou após o 1º turno

Para entender a bolsa de valores hoje, é preciso voltar a uma segunda-feira que já entrou para a história do mercado brasileiro. Logo após o primeiro turno das eleições de 2026, o Ibovespa fechou aos 206,9 mil pontos, com alta de 7,7% em apenas um pregão. Enquanto isso, o dólar registrou sua maior queda diária desde junho de 2018.
O tamanho do movimento fica ainda mais claro quando comparado às últimas eleições presidenciais. Após o primeiro turno de 2018, a Bolsa avançou cerca de 4,5%. Em 2022, a alta foi de aproximadamente 5,5%. Agora, a valorização chegou a 7,7%, e a eleição ainda não terminou. Ou seja, o mercado não esperou o placar final para se mexer.
É justamente aí que entra esse novo artigo da ZERO Markets Brasil. Em vez de falar da disputa política, o trader e analista convidado Rodrigo Cohen concentra a análise na pergunta que realmente importa para quem acompanha a bolsa de valores hoje: o que exatamente o mercado comprou e quais riscos ainda não estão precificados?
Na leitura dele, a lógica é menos emocional do que parece:
“O mercado não vota. O mercado calcula. Ele tenta antecipar quanto o próximo governo vai gastar, quanto vai arrecadar e o que fará com as empresas que controla.”
O que a Petrobras e Banco do Brasil dizem sobre a eleição? Como isso afeta a Bolsa de valores hoje?
Dentro desse movimento, a reação das estatais foi uma das mais fortes do pregão. Segundo Cohen, as ações preferenciais da Petrobras (PETR4) avançaram aproximadamente 8%, enquanto o Banco do Brasil (BBAS3) também apareceu entre os destaques positivos. E não é coincidência.
Afinal, empresas controladas pelo governo costumam reagir com intensidade às mudanças de expectativa política. Isso acontece porque decisões sobre gestão, dividendos, investimentos, preços e utilização das companhias podem depender diretamente da orientação do próximo governo. Em outras palavras, quem quer entender a bolsa de valores hoje precisa olhar com atenção para as estatais. Como resume Cohen:
“As estatais são um dos termômetros mais diretos da expectativa política na Bolsa.”
O que o mercado enxergou no cenário Flávio Bolsonaro

Segundo Cohen, a plataforma econômica associada à candidatura de Flávio Bolsonaro tem sido interpretada pelo mercado a partir de alguns pilares:
redução de despesas;
diminuição da estrutura administrativa;
possibilidade de uma nova regra fiscal;
redução de impostos;
retomada de privatizações.
Na prática, é a expectativa em torno dessas medidas e não medidas já implementadas, que ajuda a explicar parte da euforia que se vê na bolsa de valores hoje. Por trás dessa expectativa, a lógica passa principalmente pela trajetória dos juros.
Por que bancos, varejo e construção subiram
Se o mercado acredita em maior controle dos gastos públicos, a expectativa de longo prazo é de menor pressão fiscal e, consequentemente, de possibilidade de juros menores.
Juros menores, por sua vez, produzem uma cadeia de efeitos. Para começar, o crédito fica mais barato. Com isso, os financiamentos ficam menos pesados.
Do lado das empresas, as mais endividadas reduzem suas despesas financeiras. Já os consumidores ganham maior capacidade de comprar parcelado. E o financiamento imobiliário também tende a ficar mais acessível.
É por isso que, na bolsa de valores hoje, alguns setores podem responder rapidamente a uma mudança nas expectativas de juros:
bancos;
varejo;
construção civil;
mercado de capitais;
empresas mais endividadas.
Como lembra Cohen:
“A Bolsa não espera que o juro caia para reagir. Ela tenta antecipar o que poderá acontecer.”
E o que aconteceria em um cenário de continuidade de Lula?

Cohen ressalta que analisar mercado não significa tratar o cenário oposto como uma catástrofe. Ele apenas produz vencedores e perdedores diferentes.
Em uma eventual continuidade do atual governo, um dos grupos que podem ganhar relevância é o das empresas exportadoras e mais resilientes ao cenário doméstico. A lógica está principalmente no câmbio.
Empresas que faturam em dólar podem se beneficiar de uma moeda americana mais valorizada, pois convertem suas receitas externas para um volume maior de reais.
“Em um cenário, você pode ter empresas ganhando com juros menores. No outro, as exportadoras podem ganhar com um dólar mais alto.”
Reforma tributária também entra na conta das empresas
Outro tema que pode produzir consequências diretas é a reforma tributária.
Dependendo da composição do próximo governo e do Congresso, podem ocorrer mudanças na condução das exceções, regimes especiais e na própria amplitude da base tributária.
Para Cohen, esse debate ultrapassa a Bolsa. Ele afeta diretamente o caixa das empresas. Carga tributária, juros e custo de capital interferem na capacidade das companhias de investir, contratar e crescer.
A Bolsa comprou uma promessa
Esse é o ponto central da análise de Cohen sobre a bolsa de valores hoje. O movimento de 7,7% do Ibovespa não aconteceu porque uma nova política fiscal já entrou em vigor.
Até agora, nenhuma reforma foi aprovada. Nenhuma nova trajetória para a dívida pública foi implementada. Nenhuma privatização aconteceu.
Na verdade, o mercado simplesmente antecipou um cenário que considera mais provável ou favorável. Nas palavras de Cohen:
“O mercado pagou antecipadamente por uma promessa que ainda ninguém cumpriu. Ninguém sequer tomou posse.”
Por isso, essa característica é normal nos mercados financeiros. Afinal, os preços refletem expectativas sobre o futuro, e não apenas aquilo que já aconteceu. Só que existe um risco nessa antecipação.
Pesquisa mostra empate técnico enquanto Bolsa demonstra convicção
No mesmo período em que o Ibovespa registrou sua maior reação pós-primeiro turno das últimas eleições, uma pesquisa Datafolha apontou empate técnico no segundo turno dentro da margem de erro, segundo os dados citados por Cohen.
Isso cria uma divergência relevante. A pesquisa indica incerteza. O preço dos ativos, por outro lado, mostrou uma convicção muito maior.
“Isso não significa que o mercado esteja errado. Significa que o mercado está mais convicto do que o dado permite.”
E essa diferença pode aumentar a volatilidade nas próximas semanas.
O risco agora é assimétrico
Quando um ativo sobe antecipando determinado resultado, parte da notícia positiva já passa a fazer parte do preço. Se o cenário esperado se confirmar, o mercado pode continuar avançando, mas parte do movimento já aconteceu.
Se a expectativa for frustrada, porém, a correção pode ser muito mais rápida. Segundo Cohen, casas de análise já trabalham com possibilidades de ajustes entre 5% e 10% caso o cenário eleitoral mude significativamente.
É o velho comportamento resumido pela expressão: “Sobe no boato e cai no fato.”
FOMO pode ser uma armadilha até o segundo turno

Depois de uma alta de 7,7% em um único dia, um dos maiores riscos para o investidor é psicológico. É o chamado FOMO - Fear of Missing Out, ou medo de ficar de fora.
A pessoa vê a Bolsa renovando recordes, acompanha outros investidores ganhando dinheiro e decide entrar justamente depois de uma valorização muito forte.
Para Cohen, perseguir preço em um momento de euforia pode ser tão perigoso quanto vender tudo durante um pregão de pânico.
“Se a Bolsa subir muito até o segundo turno, quem ficou de fora não deveria simplesmente sair correndo atrás. E se cair forte, também não deveria vender no desespero.”
Nos dois casos, existe o risco de tomar uma das decisões financeiras mais importantes do ano justamente no momento de maior emoção.
Eleições anteriores mostram que o primeiro movimento não conta a história inteira
Cohen acompanha profissionalmente o mercado durante eleições desde 2009 e chama atenção para um padrão.
O movimento dos primeiros dias após uma votação raramente representa sozinho o comportamento de todo o ciclo seguinte.
Expectativas mudam. Pesquisas mudam. Composição política muda. Propostas econômicas ganham detalhes. E, depois da eleição, começa a parte mais difícil: transformar promessas em execução.
Por isso, a reação inicial deve ser interpretada como precificação de expectativa, não como garantia sobre o futuro da economia.
A pergunta mais importante não é quem vai ganhar
Para Cohen, investidores e empresários deveriam evitar transformar uma decisão financeira em torcida eleitoral.
A pergunta mais útil é outra: o que acontece com meu patrimônio e com minha empresa em cada cenário?
Juros podem mudar. Dólar pode mudar. Tributação pode mudar. Crédito pode ficar mais caro ou mais barato. Determinados setores podem ser favorecidos enquanto outros perdem atratividade. É possível preparar a carteira e o negócio para mais de um resultado.
“Eu não tento adivinhar quem vai ganhar. Olho para o meu negócio e pergunto o que muda de verdade em cada cenário.”
Conclusão
A disparada de 7,7% do Ibovespa, levando o índice aos 206,9 mil pontos, mostra o tamanho da expectativa criada pelo primeiro turno. Mas expectativa não é execução.
O mercado já começou a precificar uma determinada trajetória para gastos públicos, juros, empresas estatais e reformas antes mesmo da definição eleitoral.
Isso cria oportunidades, mas também aumenta o risco caso a realidade seja diferente da narrativa que os preços incorporaram.
Para Rodrigo Cohen, o investidor não precisa transformar sua carteira em uma aposta eleitoral. Precisa entender sua exposição.
“Você e eu não controlamos a urna. Mas controlamos a nossa exposição a ela.”
Confira o vídeo completo sobre este assunto no canal da ZERO Markets Brasil.

