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Caso Casas Bahia: qual lição o investidor deve se atentar?

O caso Casas Bahia ajuda a ilustrar, de forma prática, um risco que muitos investidores brasileiros podem não perceber ao montar uma carteira concentrada apenas no mercado nacional. De um lado, está uma empresa grande, tradicional e conhecida por praticamente todos os brasileiros. Do outro, uma das maiores companhias de tecnologia do mundo.
Nos últimos anos, as ações das Casas Bahia sofreram uma destruição próxima de 99,9% do valor, considerando o histórico ajustado pelos grupamentos. Enquanto isso, os BDRs da Alphabet, controladora do Google, seguiram uma trajetória completamente diferente, acumulando valorização próxima de 1.500% no período analisado.

Entretanto, para o trader e analista convidado da Zero Markets Brasil Rodrigo Cohen, a principal reflexão levantada pelo caso Casas Bahia não está em tentar descobrir antecipadamente qual empresa vai subir ou cair.
Na verdade, a questão central é outra: até que ponto o investidor brasileiro está realmente diversificado quando mantém praticamente todo o patrimônio exposto aos mesmos riscos econômicos? Isso porque possuir ações de diferentes empresas brasileiras não significa, necessariamente, ter uma carteira verdadeiramente diversificada. Afinal, todas essas companhias continuam, em maior ou menor grau, expostas à mesma moeda, às mesmas taxas de juros, ao desempenho da economia brasileira e aos riscos políticos e fiscais do país.
“Não basta ter dez ações diferentes se todas dependem da mesma moeda, dos mesmos juros, da mesma economia e do mesmo risco político.”
Caso Casas Bahia: o perigo do familiar
O caso Casas Bahia revela uma armadilha comum entre investidores: a tendência de associar familiaridade com segurança. A Casas Bahia é uma das marcas mais reconhecidas do varejo brasileiro. No entanto, é justamente aí que surge um risco comportamental importante. Segundo Cohen, muitos investidores acabam confundindo conhecimento da marca com conhecimento do investimento.
Em outras palavras, comprar em uma empresa, conhecer suas lojas ou utilizar seus produtos não significa, necessariamente, compreender seus fundamentos. Afinal, investir exige uma análise mais profunda sobre pontos como:
seu endividamento;
sua geração de caixa;
suas margens;
sua eficiência operacional;
sua capacidade de crescimento;
e o preço adequado de suas ações.
Esse comportamento é conhecido como viés da familiaridade: a tendência de considerar mais seguro aquilo que está próximo, conhecido e presente no dia a dia. Por isso, o caso Casas Bahia serve como alerta. Reconhecer uma marca pode gerar confiança, mas isso não substitui a análise dos números, da gestão e da qualidade do ativo.
“Conhecer uma empresa não significa conhecer o balanço. Comprar numa loja não significa que a ação daquela empresa seja boa.”
Queda próxima de 100% destruiu valor do acionista
O gráfico histórico ajustado das Casas Bahia mostra uma queda próxima de 99,9%.
Cohen ressalta que é necessário cuidado ao analisar esses números, porque as ações passaram por grupamentos e, portanto, não se deve simplesmente comparar cotações antigas e atuais sem os respectivos ajustes.

Ainda assim, o resultado econômico para o acionista de longo prazo foi devastador.
Entre os fatores que ajudam a explicar a deterioração estão:
juros elevados;
endividamento;
margens apertadas;
concorrência;
dificuldades operacionais;
e uma economia particularmente dura para empresas dependentes do crédito.
Por que juros altos castigam tanto o varejo
O varejo possui uma característica especialmente perigosa durante ciclos de juros elevados.
A empresa precisa financiar:
estoques;
lojas;
funcionários;
operação;
capital de giro;
e, em muitos casos, o próprio consumidor.
Quando os juros sobem, dois problemas aparecem simultaneamente.
O custo financeiro da companhia aumenta e o consumidor também perde capacidade de compra.
Com isso:
a empresa pode vender menos justamente quando seu dinheiro ficou mais caro.
Além disso, aumenta o risco de inadimplência.
Para Cohen, essa combinação ajuda a explicar por que varejistas brasileiras sofreram tanto nos últimos anos.
Caso Casas Bahia: cair 90% não significa estar barato
O caso Casas Bahia também ajuda a ilustrar outro erro comum entre investidores: acreditar que uma ação ficou barata apenas porque sofreu uma grande queda. Depois de uma desvalorização de 80%, 90% ou até mais, é comum o investidor olhar para o preço e concluir: “Agora está barata.”
No entanto, esse raciocínio pode ser matematicamente perigoso. Uma ação que cai de R$ 100 para R$ 10 perdeu 90% do seu valor. Ainda assim, isso não significa que ela chegou ao fundo. O papel pode, por exemplo, cair de R$ 10 para R$ 1.
Nesse caso, quem comprou depois da primeira queda também enfrentaria uma nova perda de 90%.
“Preço baixo não é sinônimo de empresa barata. O mercado não tem obrigação nenhuma de voltar ao preço que você comprou.”
Por isso, segundo Cohen, analisar se uma empresa realmente está barata exige ir além da cotação. É preciso observar fatores como dívida, geração de caixa, margens, resultado operacional, necessidade de capital e capacidade efetiva de recuperação.
Assim, o caso Casas Bahia reforça uma lição importante: uma grande queda no preço pode chamar atenção, mas, sozinha, não representa uma oportunidade de investimento.
Do outro lado, Google avançou cerca de 1.500%
Para mostrar como empresas expostas a economias e setores diferentes podem produzir resultados completamente distintos, Cohen compara o período com a Alphabet, controladora do Google.
A companhia pode ser acessada pelo investidor brasileiro inclusive através de BDRs negociados na B3.
No período utilizado na análise, a valorização ficou próxima de 1.500%, em contraste com a destruição de valor observada nas Casas Bahia.

A Alphabet possui exposição a negócios como:
publicidade digital;
computação em nuvem;
inteligência artificial;
sistemas operacionais;
plataformas digitais;
e receitas provenientes de diferentes países e moedas.
Comparação não significa que “Estados Unidos são bons e Brasil é ruim”
Cohen faz, porém, uma ressalva importante.
Comparar uma das empresas brasileiras que mais perderam valor com uma das maiores vencedoras americanas produziria uma conclusão enganosa se fosse utilizada para afirmar que toda empresa americana é superior.
Não é.
Empresas americanas também quebram. Companhias de tecnologia também podem destruir praticamente todo o valor do acionista.
“A lição não é que Estados Unidos são bons e Brasil é ruim. A lição é que investir apenas no Brasil reduz drasticamente o seu universo de possibilidades.”
Ao permanecer exclusivamente no mercado doméstico, o investidor deixa de acessar setores, moedas, economias e modelos de negócio pouco representados na Bolsa brasileira.
Ter dez ações brasileiras não significa estar verdadeiramente diversificado
Esse talvez seja o principal alerta da análise.
Um investidor pode possuir dez ações diferentes e acreditar que seu patrimônio está diversificado.
Mas, se todas forem brasileiras, elas continuam expostas simultaneamente:
ao real;
à Selic;
à política fiscal brasileira;
ao crescimento econômico do Brasil;
ao risco político doméstico;
e às características estruturais da B3.
Cohen utiliza uma analogia:
“É como ter dez apartamentos no mesmo prédio e acreditar que está protegido porque estão em andares diferentes.”
Se o problema acontecer dentro de apenas um apartamento, a diversificação funciona.
Mas se o problema estiver no prédio, todos podem ser afetados. “O país é o prédio”, resume.
Bolsa brasileira também possui concentração setorial
Outro ponto importante é a própria composição do mercado brasileiro.
A B3 possui forte representação de setores como:
bancos;
commodities;
petróleo;
mineração;
e empresas ligadas diretamente à economia doméstica.
Já mercados internacionais permitem exposição muito maior a áreas como:
inteligência artificial;
semicondutores;
biotecnologia;
software;
plataformas digitais;
tecnologia global.
Isso não significa abandonar os ativos brasileiros.
Segundo Cohen, vender tudo no Brasil e concentrar todo o patrimônio nos Estados Unidos apenas substituiria uma concentração por outra.
O brasileiro já possui uma enorme exposição ao Brasil sem perceber
Existe ainda outro problema.
Mesmo antes de investir, grande parte do patrimônio e da renda de um brasileiro já depende do próprio país.
Normalmente:
seu salário é recebido no Brasil;
sua empresa está no Brasil;
seus imóveis estão no Brasil;
suas despesas são em reais;
sua aposentadoria depende da economia brasileira.
Se todos os investimentos financeiros também estiverem no país, a concentração real pode ser muito maior do que aparece na carteira.
Por isso, Cohen defende que diversificação deve envolver não apenas empresas diferentes, mas também setores, moedas e países.
Diversificar não serve para maximizar retorno
Existe ainda uma interpretação equivocada sobre diversificação.
Ela não existe para garantir que o investidor esteja sempre no ativo que mais sobe.
Na verdade, seu objetivo é quase o contrário:
impedir que uma decisão errada seja capaz de destruir o patrimônio inteiro.
“Nenhuma empresa deveria ter o poder de destruir o seu patrimônio. Nenhum setor deveria ter esse poder. Nenhuma moeda deveria ter esse poder. E nenhum país também deveria ter esse poder.”
E existe uma razão matemática para isso.
Quem perde 50% do patrimônio precisa ganhar 100% sobre o capital restante apenas para voltar ao ponto inicial.
A principal lição do caso Casas Bahia
O episódio não ensina que o investidor deveria ter previsto a queda das Casas Bahia. Também não significa que deveria ter colocado todo o dinheiro no Google.
A lição é sobre concentração de risco. Uma carteira realmente diversificada pode envolver diferentes:
empresas;
setores;
moedas;
classes de ativos;
e países.
O percentual adequado dependerá do patrimônio, idade, objetivos, horizonte de investimento e tolerância ao risco de cada pessoa. Para Cohen, porém, existe um princípio anterior à busca pelo maior retorno:
“No mercado, sobreviver vem antes de enriquecer.”
E talvez essa seja justamente a diferença entre diversificar porque existem várias ações na carteira e diversificar os riscos que realmente podem destruir o patrimônio.
Confira o vídeo completo desse assunto no nosso canal do Youtube.
DISCLAIMER:
As opiniões aqui expressas refletem o entendimento pessoal e independente do Diretor de Análise RODRIGO SANTOS COHEN, CNPI-T (6520), inclusive em relação à pessoa jurídica à qual está vinculado. Este relatório não constitui oferta nem garantia de resultado, e o investidor é o único responsável por suas decisões. A Zero Markets Brasil Consultoria e Análise de Valores Mobiliários LDTA, CNPJ 56.964.932/0001-09, credenciada perante a APIMEC Brasil, declara, nos termos do art. 22 da Resolução CVM nº 20/2021, não haver situação que afete a imparcialidade deste relatório ou configure conflito de interesses, ressalvado o que, se existente, será divulgado no próprio relatório.

