Artigo
Alta dos Treasuries americanos reacende debate sobre diversificação e proteção cambial

Com juros longos dos EUA acima de 5%, investidores brasileiros voltam a olhar para os títulos do Tesouro americano como alternativa estratégica de proteção e diversificação internacional
A recente alta dos Treasuries americanos recolocou a renda fixa global no centro das atenções dos investidores. Em um cenário marcado por inflação persistente, tensões geopolíticas e juros elevados por mais tempo nos Estados Unidos, os títulos públicos americanos passaram novamente a oferecer retornos considerados atrativos, especialmente para quem busca segurança e exposição ao dólar.
Além disso, a alta dos Treasuries americanos ocorre em um momento de forte volatilidade global, o que aumenta a procura por ativos considerados defensivos. Consequentemente, investidores brasileiros passaram a avaliar com mais atenção se vale a pena complementar a carteira local com títulos soberanos dos EUA.
Os Treasuries de 10 anos ultrapassaram 4,5% ao ano, enquanto os papéis de 30 anos se aproximaram de 5%, patamares que não eram vistos há anos. O movimento reflete, sobretudo, a percepção de que o Federal Reserve poderá manter juros elevados por mais tempo diante da resistência da inflação americana.
O que está por trás da alta dos Treasuries americanos
A alta dos Treasuries americanos é resultado de uma combinação de fatores macroeconômicos e geopolíticos. Em primeiro lugar, o mercado passou a revisar as expectativas de cortes de juros nos Estados Unidos. Dados econômicos resilientes e inflação ainda acima da meta fizeram investidores reduzirem as apostas em flexibilização monetária no curto prazo.
Ao mesmo tempo, o avanço do petróleo diante da escalada das tensões entre Irã, Israel e Estados Unidos adicionou pressão inflacionária global. Como consequência, os juros longos dispararam não apenas nos EUA, mas também em outros países desenvolvidos.
Esse movimento impacta diretamente os mercados financeiros globais. Isso porque os Treasuries servem como referência para precificação de crédito, financiamento e valuation de empresas ao redor do mundo.
Segundo especialistas, juros mais altos elevam o custo de capital e reduzem o valor presente dos fluxos de caixa futuros. Dessa forma, setores ligados à tecnologia e inteligência artificial tendem a sofrer mais pressão, especialmente empresas de crescimento.

Por que investidores brasileiros estão buscando Treasuries
A alta dos Treasuries americanos também impulsionou o interesse de investidores brasileiros por ativos internacionais. Afinal, além da remuneração em dólar, os títulos americanos funcionam como instrumento de proteção cambial em momentos de instabilidade no Brasil.
Na prática, investir em Treasuries significa emprestar dinheiro ao governo americano em troca de juros pagos ao longo do tempo ou no vencimento do papel. Embora o rendimento nominal seja inferior ao da Selic brasileira, a exposição ao dólar pode compensar parte dessa diferença em períodos de valorização da moeda americana.
Segundo especialistas do mercado, o investidor brasileiro passou a enxergar os Treasuries não apenas como proteção, mas como uma classe relevante dentro de uma estratégia global de investimentos.
Além disso, o histórico recente reforça esse argumento. Em 2024, por exemplo, o dólar chegou a acumular valorização superior a 20% frente ao real em determinados momentos, movimento capaz de compensar o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos.
Vale trocar a Selic pelos Treasuries?
Apesar da forte alta dos Treasuries americanos, especialistas destacam que os títulos americanos não devem ser vistos como substitutos diretos da renda fixa brasileira.
Com a Selic em 14,50% ao ano, os ativos locais ainda oferecem retornos nominais significativamente mais elevados. No entanto, concentrar todo o patrimônio em ativos domésticos aumenta a exposição ao risco Brasil.
Por isso, a principal recomendação é utilizar os Treasuries como complemento estratégico da carteira. Em outras palavras, trata-se menos de trocar a Selic pelos juros americanos e mais de buscar diversificação geográfica e proteção em moeda forte.
Outro ponto importante é a volatilidade cambial. Embora o dólar possa funcionar como hedge em cenários de estresse, oscilações cambiais também podem impactar negativamente o retorno em reais no curto prazo.

Matéria do nosso diretor de análise, Marcos Praça, na revista EXAME
Como investir em Treasuries nos EUA
Hoje, o investidor brasileiro já consegue acessar diretamente os títulos do Tesouro americano por meio de plataformas internacionais com acesso ao mercado americano.
O processo normalmente envolve:
abertura de conta em corretora internacional;
remessa de recursos em dólar;
compra direta dos títulos públicos americanos.
Entretanto, diferente do Tesouro Direto brasileiro, os Treasuries ainda exigem investimento mínimo mais elevado, geralmente próximo de US$ 1.000 por título.
Além disso, existem custos envolvidos, como:
spread cambial;
IOF sobre remessas internacionais;
custos operacionais de negociação.
Por outro lado, os Treasuries oferecem elevada liquidez e, em muitos casos, eficiência tributária para investidores estrangeiros.
ETFs aparecem como alternativa mais acessível
Para investidores que desejam exposição internacional sem abrir conta no exterior, os ETFs listados na B3 ganharam relevância.
Entre os principais fundos citados por especialistas estão:
FIXX11
T10R11
TREA11
USDB11
IB5M11
Esses ETFs permitem acessar a dinâmica da alta dos Treasuries americanos diretamente pela bolsa brasileira, com negociação em reais e liquidação local.
No entanto, é importante observar a duration dos fundos. ETFs expostos a títulos longos tendem a sofrer mais volatilidade quando os juros sobem. Já fundos de curto prazo geralmente apresentam menor sensibilidade às oscilações da curva americana.
Diversificação internacional ganha espaço
A tendência é que a exposição internacional em renda fixa continue crescendo nas carteiras dos brasileiros. Em um ambiente global de juros mais elevados, ativos dolarizados passam a desempenhar papel cada vez mais relevante na proteção patrimonial.
Segundo Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, em sua última participação sobre o assunto na revista Exame, muitos gestores já trabalham com algo entre 5% e 15% de exposição internacional como ponto de partida, podendo ampliar esse percentual conforme o perfil e patrimônio do investidor.
Dessa forma, a alta dos Treasuries americanos reforça um movimento estrutural: a busca por diversificação global deixou de ser exclusividade de investidores institucionais e passou a fazer parte também da estratégia do investidor pessoa física brasileiro.
⚠ DISCLAIMER:
Nenhuma parte do conteúdo deste canal deve ser interpretada como oferta, negociação ou solicitação de valores mobiliários ou outros instrumentos financeiros. Também não configura garantia de resultados ou compromisso de retorno sobre qualquer ativo analisado. As opiniões expressas neste vídeo refletem exclusivamente (i) o entendimento independente e pessoal do Diretor de Análise da Zero Markets Brasil, MARCOS FELIPE MARTINS DA SILVA PRAÇA, CNPI-T (EM-9505); (ii) não constituem recomendação de compra e/ou venda de qualquer ativo ou valor mobiliário; e (iii) as informações, estimativas e projeções utilizadas para formar o entendimento do analista refletem a data de publicação e estão sujeitas a alterações, sem a obrigação de comunicação para atualizações ou revisões, uma vez que não constituem recomendação de investimento ou desinvestimento. O investidor que, de algum modo, utilizar as informações e opiniões aqui veiculadas em seu processo de tomada de decisão é exclusivamente responsável por suas escolhas de investimento ou abstenção de investimento, não tendo a Zero Markets Brasil nem o Analista qualquer responsabilidade sobre os resultados ou prejuízos eventualmente obtidos. Nem o Analista nem a Zero Markets Brasil receberam qualquer benefício ou retorno financeiro em razão das opiniões aqui veiculadas, o que foi feito de modo absolutamente independente e livre de qualquer conflito de interesses, nos termos da Resolução CVM 20/2021.


