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Ações da Nvidia perdem US$ 1 trilhão em valor, mas setor de chips sobe 74%

As ações Nvidia voltaram ao centro das atenções após a companhia perder cerca de US$ 1 trilhão em valor de mercado em menos de dois meses.

À primeira vista, o número parece confirmar uma tese que vem ganhando força entre investidores: a de que a chamada bolha da inteligência artificial finalmente começou a estourar.

No entanto, existe um problema nessa conclusão.

Enquanto as ações Nvidia perderam força e a maior companhia de chips ligados à inteligência artificial enfrentou uma forte correção, o índice que reúne as principais empresas de semicondutores dos Estados Unidos acumulou alta de aproximadamente 74% no ano. Com isso, o setor caminha para registrar um dos melhores desempenhos das últimas décadas.

Ou seja, embora a Nvidia tenha perdido valor de mercado, o movimento do restante do setor conta uma história diferente.

Por isso, analisar apenas a queda das ações Nvidia pode levar o investidor a uma interpretação incompleta sobre o momento da inteligência artificial e da indústria global de semicondutores.

No novo conteúdo da Zero Markets Brasil, o trader e analista convidado Rodrigo Cohen explica por que esse movimento pode representar menos uma fuga de capital da inteligência artificial e mais uma redistribuição do dinheiro entre empresas que participam da mesma tese de crescimento.

“Um trilhão de dólares desapareceu da Nvidia, mas o dinheiro não saiu necessariamente da inteligência artificial. Ele pode simplesmente ter mudado de lugar dentro da mesma tese.”

Nvidia deixou de ser cara?

Depois da forte correção, Cohen chama atenção para um dado que contraria a narrativa de euforia excessiva.

Uma das métricas mais utilizadas pelo mercado para avaliar valuation é a relação entre preço e lucro, o chamado P/L.

De forma simplificada, o indicador mostra quantos anos de lucro o investidor está pagando ao comprar uma ação.

Segundo os números apresentados:

  • Nvidia negocia atualmente próximo de 18 vezes o lucro;

  • a média das grandes empresas americanas está acima de 20 vezes;

  • empresas de tecnologia negociam próximas de 23 vezes.

Ou seja, segundo essa métrica, a maior empresa de inteligência artificial do mundo estaria atualmente negociando abaixo da média do próprio mercado.

“Bolha normalmente não fica barata. Se ficou barata, ou não era bolha ou parte dela já foi corrigida.”

Queda da Nvidia não derrubou o setor


Esse é o ponto que Cohen considera mais importante.

Se a tese de inteligência artificial tivesse sido completamente abandonada pelos investidores, seria natural esperar uma queda generalizada em empresas de chips e infraestrutura tecnológica.

Mas foi justamente o contrário.

Enquanto a Nvidia acumulou valorização de aproximadamente 5,5% no ano, o índice de semicondutores avançou cerca de 74%.

Isso sugere que o capital permaneceu no setor, mas migrou para outras empresas.

Micron sobe mais de 200% e mostra rotação de capital

Um dos exemplos mais claros é a Micron.

Segundo Cohen, a fabricante de memória para computadores e data centers acumulou alta próxima de:

  • 229% no ano atual;

  • depois de aproximadamente 239% no ano anterior.

Outros nomes que haviam ficado para trás no início da corrida por inteligência artificial, como AMD e Intel, também apresentaram fortes valorizações.

Esse movimento é conhecido no mercado como rotação.

“O investidor não necessariamente abandona uma história. Ele tira dinheiro de onde já subiu demais e coloca onde ainda existe espaço dentro da mesma tese.”

A manchete pode contar apenas metade da história

Para Cohen, esse caso expõe um erro comum de investidores. Uma ação pode cair de forma expressiva e, ainda assim, o setor continuar extremamente forte.

Por isso, concluir que uma tendência acabou apenas porque a empresa líder parou de subir pode ser precipitado.

A queda da Nvidia e a valorização simultânea de outras empresas de chips mostram que dois fatos aparentemente contraditórios podem ser verdadeiros ao mesmo tempo.

“Quem lê só a manchete da Nvidia caindo pode concluir exatamente o contrário do que está acontecendo no setor.”

OpenAI mostra o outro lado da discussão


Apesar da força das empresas de semicondutores, Cohen ressalta que existem argumentos legítimos para quem acredita na existência de uma bolha em inteligência artificial.

Um dos principais exemplos está na própria OpenAI.

Segundo os números apresentados no vídeo:

  • a empresa teria registrado prejuízo próximo de US$ 21 bilhões em 2025;

  • projetaria mais de US$ 14 bilhões em perdas no ano seguinte;

  • não esperaria atingir lucro antes de 2029;

  • e teria planos de investimentos que somariam aproximadamente US$ 1,4 trilhão nos próximos anos.

Para Cohen, o problema não é questionar se a tecnologia funciona. Ela funciona. A questão é outra:

o valor econômico produzido será suficiente para justificar o tamanho do investimento necessário?

Tecnologia funciona; modelo econômico ainda precisa provar retorno

Esse talvez seja o principal debate em torno da inteligência artificial.

Empresas, usuários e profissionais já incorporaram modelos generativos, automações e agentes às suas rotinas. Mas uso não significa necessariamente lucro.

O desafio está em demonstrar que a receita criada pela tecnologia será maior do que o custo de infraestrutura, processamento, treinamento dos modelos e expansão dos data centers.

“A tecnologia funciona. A pergunta é se o custo de operar tudo isso vai ser menor do que o valor que ela consegue gerar.”

Uma ação que caiu pode continuar cara

Outro ensinamento levantado por Cohen diz respeito à diferença entre preço e valuation.

Uma ação cair 50% não significa automaticamente que ficou barata.

Da mesma forma, uma empresa que subiu 1.000% não necessariamente está cara se seus lucros cresceram ainda mais rápido.

O preço isoladamente não conta toda a história.

É preciso observar também:

  • crescimento dos lucros;

  • geração de caixa;

  • margens;

  • valuation;

  • posição competitiva;

  • e capacidade de transformar crescimento em resultado.

Três lições para investidores

A história recente da Nvidia deixa três mensagens principais.

A primeira é que queda de uma ação não significa necessariamente deterioração de todo o setor.

A segunda é que caro e barato não dependem apenas do preço da ação.

E a terceira é que o capital costuma se mover dentro das grandes narrativas antes de abandoná-las completamente.

Esse último ponto é particularmente importante.

Quando o líder de um setor perde força, pode valer a pena observar o comportamento das empresas ao redor antes de concluir que toda a tese terminou.

Então IA é uma bolha?

Para Cohen, hoje existem argumentos sólidos dos dois lados.

Quem acredita que existe uma bolha pode apontar para empresas que queimam bilhões de dólares sem horizonte claro de rentabilidade.

Quem acredita que não existe pode apontar para companhias como Nvidia, que já apresentam lucros expressivos e valuations que deixaram de parecer extremos após a correção.

Por isso, ele evita uma resposta definitiva.

“A única resposta honesta hoje é que existem números sustentando os dois lados.”

O investidor não precisa acertar a tese inteira

Para Cohen, essa é talvez a parte mais importante.

O investidor não precisa prever exatamente se a inteligência artificial continuará produzindo retornos extraordinários ou se parte da valorização recente será devolvida.

O principal é evitar uma exposição tão grande a uma única tese que um erro seja capaz de comprometer todo o patrimônio.

“Eu não preciso adivinhar quem está certo. Preciso apenas não estar em uma posição que, se eu estiver errado, me prejudique demais.”

Conclusão

A perda de US$ 1 trilhão em valor de mercado da Nvidia parece, à primeira vista, um sinal evidente de fraqueza da tese de inteligência artificial. No entanto, o comportamento das ações Nvidia e do restante do setor de semicondutores mostra uma história mais complexa.

Enquanto as ações Nvidia passaram por uma forte correção, outras empresas do segmento continuaram avançando, com algumas delas mais que dobrando de valor ao longo do período.

Além disso, grandes companhias privadas de inteligência artificial ainda precisam demonstrar que conseguem transformar crescimento tecnológico, investimentos elevados e expansão acelerada em lucro sustentável no longo prazo.

Portanto, para Rodrigo Cohen, a principal conclusão não é decretar vitória ou derrota para a tese da inteligência artificial, nem interpretar isoladamente o desempenho das ações Nvidia.

O ponto central é aprender a enxergar além da manchete e entender para onde o capital está se movimentando dentro do próprio setor de tecnologia e inteligência artificial.

“Quando o líder para de subir, olhe para os vizinhos. Às vezes o dinheiro não saiu da história. Ele apenas mudou de endereço.”

Confira o vídeo completo sobre este assunto no canal da ZERO Markets Brasil no Youtube. 

DISCLAIMER:
As opiniões aqui expressas refletem o entendimento pessoal e independente do Diretor de Análise RODRIGO SANTOS COHEN, CNPI-T (6520), inclusive em relação à pessoa jurídica à qual está vinculado. Este relatório não constitui oferta nem garantia de resultado, e o investidor é o único responsável por suas decisões. A  Zero Markets Brasil Consultoria e Análise de Valores Mobiliários LDTA, CNPJ 56.964.932/0001-09, credenciada perante a APIMEC Brasil, declara, nos termos do art. 22 da Resolução CVM nº 20/2021, não haver situação que afete a imparcialidade deste relatório ou configure conflito de interesses, ressalvado o que, se existente, será divulgado no próprio relatório.

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