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O erro do mercado com a Alphabet: por que investir no Google voltou ao radar

Há cerca de 18 meses, uma tese ganhou força no mercado: a inteligência artificial generativa poderia tornar o Google obsoleto.

Afinal, com a popularização de ferramentas como o ChatGPT, os usuários passaram a fazer perguntas diretamente aos modelos de IA, em vez de recorrer aos mecanismos tradicionais de busca. Por isso, para muitos investidores, parecia que o principal motor econômico da Alphabet estava ameaçado. Consequentemente, investir no Google passou a ser visto como uma aposta arriscada.

No entanto, o que aconteceu depois foi praticamente o contrário. De acordo com os números apresentados pelo trader e analista convidado da ZERO Markets Brasil, Rodrigo Cohen, a Alphabet tornou-se a ação de melhor desempenho entre as sete maiores empresas americanas de tecnologia. Ao mesmo tempo, seu negócio de busca continuou crescendo.


Em outras palavras, como resume o analista:

"O negócio que o mercado enterrou cresceu 17% enquanto estava sendo enterrado."

Para Cohen, entretanto, essa não é apenas uma história sobre Google ou inteligência artificial. Na verdade, é uma lição sobre a distância que pode existir entre o que uma empresa realmente é e aquilo que o mercado acredita que ela se tornou. E é justamente essa distância que quem pensa em investir no Google hoje precisa entender.

Alphabet cresce 24% e busca continua avançando

Nesse sentido, os resultados mais recentes ajudam a explicar a mudança de percepção. De acordo com os dados apresentados por Cohen, no último trimestre a Alphabet registrou:

  • US$ 119 bilhões de receita, alta de 24%;

  • crescimento de 82% na operação de nuvem;

  • lucro dessa divisão praticamente triplicando;

  • e, sobretudo, crescimento de 17% no negócio de busca, justamente a atividade considerada mais ameaçada pela inteligência artificial.

Ou seja, enquanto os investidores discutiam a possível obsolescência do Google, seu principal negócio continuava crescendo. Dessa forma, quem desistiu de investir no Google por medo da IA acabou olhando para o risco errado.

Como resume Cohen: "Percepção e realidade podem andar separadas por muito mais tempo do que a gente imagina."

Investir no Google virou tese de resiliência

Para Cohen, a decisão estratégica mais interessante da Alphabet foi não tentar construir uma empresa completamente nova para responder à revolução da IA.

A companhia fez o contrário. Pegou o Gemini e começou a incorporar inteligência artificial aos produtos que bilhões de pessoas já utilizavam:

  • Google Search;

  • Chrome;

  • Android;

  • e demais serviços do ecossistema.

Em vez de tentar convencer o consumidor a abandonar seus hábitos e adotar uma plataforma inteiramente nova, a Alphabet levou a nova tecnologia até onde o usuário já estava.

Gemini chega a 950 milhões de usuários mensais


A estratégia começou a produzir escala. Segundo os números apresentados por Cohen, o aplicativo Gemini triplicou de tamanho em aproximadamente um ano e chegou a 950 milhões de usuários mensais.

No segmento corporativo, quase 90% das 100 maiores empresas americanas já utilizariam a versão profissional da ferramenta.

Para Cohen, a Alphabet utilizou uma vantagem que novos concorrentes dificilmente conseguem replicar rapidamente: distribuição.

“Ela não correu simplesmente atrás de quem estava na frente. Usou aquilo que os concorrentes não tinham: uma base gigantesca de pessoas que já estavam dentro.”

A lição para empresas: talvez você não precise começar do zero

Essa estratégia traz uma mensagem importante para empresários. Quando surge uma nova tecnologia, o impulso natural pode ser criar uma nova unidade, um novo produto ou até uma nova empresa para competir com ela.

A experiência da Alphabet mostra outra possibilidade: incorporar o novo àquilo que já funciona. Uma empresa estabelecida normalmente já possui ativos difíceis de reconstruir:

  • clientes;

  • distribuição;

  • marca;

  • processos;

  • dados;

  • equipe;

  • canais de venda;

  • relacionamento.

“Talvez seja mais fácil colocar o novo dentro do que já existe do que construir outra coisa do lado e torcer para funcionar.”

Mas a recuperação do Google tem um preço enorme

Existe, porém, outro lado dessa história. Isso porque, para sustentar a corrida por inteligência artificial, a Alphabet está assumindo um volume extraordinário de investimentos.

De acordo com Cohen, a companhia pretende gastar aproximadamente US$ 180 bilhões no ano, principalmente em servidores, infraestrutura e data centers.

Além disso, conforme os números apresentados no vídeo:

  • a geração de caixa no último trimestre ficou negativa em quase US$ 6 bilhões;

  • a dívida de longo prazo ultrapassou US$ 98 bilhões;

  • e, por fim, a recompra de ações foi suspensa.

Portanto, o sucesso atual não veio de graça. E, para quem avalia investir no Google, esse custo precisa entrar na conta tanto quanto o crescimento. Nas palavras de Cohen:

"A empresa ganhou a narrativa, mas comprou uma conta que só se paga se a demanda que ela está prevendo realmente aparecer."

O grande risco está nos próximos anos

A discussão deixa então de ser apenas se o Google conseguiu responder ao avanço da inteligência artificial. Conseguiu.

A pergunta passa a ser se o crescimento futuro justificará o tamanho do investimento necessário para sustentar essa resposta.

Data centers, chips, energia e infraestrutura exigem quantidades gigantescas de capital. Se a demanda por IA continuar crescendo, os investimentos podem se transformar em vantagem competitiva.

Caso contrário, a companhia terá construído uma estrutura extremamente cara antes de comprovar todo o retorno econômico esperado.

Alphabet seria a mais barata entre as sete gigantes


Além disso, existe ainda outro dado que chama atenção. Apesar da forte valorização recente, Cohen destaca que a Alphabet estaria negociando próxima de 15 vezes o lucro projetado, ou seja, abaixo das demais integrantes do grupo das sete maiores empresas americanas de tecnologia.

Na prática, isso cria uma situação aparentemente contraditória: a ação que mais subiu no grupo seria também a que apresenta o menor múltiplo de lucro entre elas.

Esse cenário, por sua vez, reforça uma lição importante sobre valuation, que vale para as ações do Google e para qualquer outro ativo. Uma ação subir muito não significa necessariamente que ficou cara. Da mesma forma, uma ação cair muito não significa que ficou barata.

No fim das contas, tudo depende da relação entre preço, lucro e expectativa de crescimento.

Primeira lição: o mercado pode decretar sua morte enquanto você continua crescendo

Para Cohen, a primeira grande lição da Alphabet vale para qualquer empresário. Uma empresa pode continuar produzindo bons resultados enquanto a percepção externa se deteriora.

Foi exatamente o que aconteceu com o negócio de busca. Enquanto parte do mercado discutia seu desaparecimento, a operação continuava crescendo.

Isso mostra que narrativa e fundamento nem sempre caminham juntos no curto prazo.

Segunda lição: use aquilo que você já construiu

A segunda lição está na forma como empresas tradicionais respondem à inovação. A Alphabet não precisava apenas possuir uma boa tecnologia. Precisava distribuí-la.

E já possuía bilhões de usuários, dispositivos Android, navegador, mecanismo de busca e clientes corporativos. Para Cohen, empresas menores deveriam fazer uma pergunta semelhante: Qual ativo que já existe dentro do negócio pode acelerar a adoção da próxima tecnologia?

Às vezes, a vantagem competitiva não está em criar algo novo, mas em conseguir colocar algo novo rapidamente dentro de uma estrutura que já funciona.

Terceira lição: toda virada tem uma conta

O terceiro aprendizado talvez seja o menos confortável. Transformações empresariais custam dinheiro.

No caso da Alphabet, o mercado hoje comemora crescimento, inteligência artificial e recuperação da narrativa.

Mas os investimentos de aproximadamente US$ 180 bilhões terão de produzir retorno nos próximos anos.

“Quando você vir uma empresa virando o jogo, procure onde está o custo. Ele nunca desaparece. Às vezes, apenas chega depois.”

A história do Google não é apenas sobre IA

Para Cohen, reduzir o caso à disputa entre Gemini e ChatGPT seria perder a parte mais importante. A história mostra como o mercado pode mudar radicalmente a avaliação de uma companhia mesmo quando seus fundamentos não mudaram na mesma velocidade.

Durante meses, o Google foi tratado como uma empresa cujo principal produto estaria ameaçado. Enquanto isso, continuou crescendo.

Depois, quando os resultados e a capacidade de distribuição da Alphabet ficaram mais evidentes, a percepção mudou.

“O negócio quase não mudou. O que mudou foi quem estava olhando para ele.”

Conclusão

A recuperação da Alphabet traz uma lição que ultrapassa Wall Street.

Empresas podem ser subestimadas. Tecnologias novas podem parecer ameaças antes de se transformarem em ferramentas. E negócios estabelecidos podem possuir vantagens que só ficam evidentes quando precisam utilizá-las.

Mas existe também um alerta. A Alphabet está apostando dezenas de bilhões de dólares que a demanda por inteligência artificial continuará crescendo.

Portanto, a história ainda não terminou. Para Rodrigo Cohen, o aprendizado mais importante está justamente nessa combinação:

“Não confunda aquilo que o mercado acha que uma empresa é com aquilo que os números mostram que ela realmente é. Mas também nunca esqueça de procurar quanto está custando provar que o mercado estava errado.”

No canal da ZERO Markets Brasil no Youtube, você encontra um vídeo completo sobre este assunto. 

DISCLAIMER:
As opiniões aqui expressas refletem o entendimento pessoal e independente do Diretor de Análise RODRIGO SANTOS COHEN, CNPI-T (6520), inclusive em relação à pessoa jurídica à qual está vinculado. Este relatório não constitui oferta nem garantia de resultado, e o investidor é o único responsável por suas decisões. A  Zero Markets Brasil Consultoria e Análise de Valores Mobiliários LDTA, CNPJ 56.964.932/0001-09, credenciada perante a APIMEC Brasil, declara, nos termos do art. 22 da Resolução CVM nº 20/2021, não haver situação que afete a imparcialidade deste relatório ou configure conflito de interesses, ressalvado o que, se existente, será divulgado no próprio relatório.



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