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Circuit Breaker: Ibovespa despenca quase 14%, dólar dispara e empresas brasileiras sobem

O mercado financeiro brasileiro viveu uma segunda-feira de extrema volatilidade após o segundo turno das eleições presidenciais durante essa semana. Segundo os números apresentados pelo trader e analista convidado da Zero Markets Brasil Rodrigo Cohen, o Ibovespa chegou a recuar mais de 17% durante o pregão e encerrou o dia próximo dos 176 mil pontos, com queda de 13,88%.

O dólar seguiu na direção contrária: disparou 8,21%, chegou a R$ 5,60 e encerrou o dia próximo de R$ 5,40. A intensidade do movimento levou ao acionamento do Circuit Breaker, mecanismo de proteção da Bolsa que suspende temporariamente as negociações em situações de queda extrema.

Mas o dado mais curioso não foi a queda do índice. Enquanto algumas das maiores empresas brasileiras registraram perdas superiores a 20%, outras companhias chegaram a subir 10% no mesmo dia. Para Cohen, esse contraste revela uma das lições mais importantes para quem investe.

“O índice caiu quase 14%, mas tinha empresa subindo 10%. Se você olha apenas para o Ibovespa, está vendo a média do mercado, não necessariamente o que aconteceu com a sua carteira.”

O que é o Circuit Breaker e por que a Bolsa para de funcionar?

O Circuit Breaker é um mecanismo criado para interromper temporariamente as negociações durante quedas muito intensas. Cohen utiliza uma comparação simples para explicar seu funcionamento.

O nome vem do disjuntor elétrico. Quando existe uma sobrecarga na instalação de uma residência, o disjuntor desarma para evitar danos maiores. Na Bolsa, a lógica é semelhante.

Quando os preços caem de maneira muito rápida, a interrupção busca permitir que investidores, instituições e participantes do mercado tenham tempo para processar informações e reavaliar suas decisões.

“O Circuit Breaker não existe para atrapalhar o investidor. Existe para interromper uma sequência de decisões que pode estar sendo alimentada pelo próprio pânico.”

Como funcionam os três níveis de proteção da B3?

O mecanismo possui diferentes estágios, conforme a intensidade da queda do Ibovespa.

  1. Primeiro estágio - queda de 10%: O pregão é interrompido por 30 minutos.

  2. Segundo estágio - queda de 15%: Se, após a retomada, o índice atingir esse nível de queda, ocorre uma nova interrupção, desta vez por uma hora.

  3. Terceiro estágio - queda de 20%: A B3 pode determinar uma suspensão adicional, por prazo definido pela própria Bolsa.

O mecanismo também possui restrições de acionamento próximo ao encerramento do pregão. Segundo Cohen, trata-se de um recurso raro, acionado poucas dezenas de vezes desde sua implementação.

Por que interromper as negociações pode ajudar?

Para Cohen, o principal objetivo é reduzir a velocidade de uma reação coletiva de pânico. Durante uma queda extrema, investidores acompanham perdas crescentes e podem tomar decisões impulsivas.

A venda de um participante pressiona os preços. A queda assusta outros investidores. Novas vendas ampliam o movimento. Forma-se uma reação em cadeia.

A interrupção temporária busca oferecer um intervalo para que informações sejam avaliadas e decisões possam ser tomadas com maior clareza.

“Quando tudo começa a cair muito rápido, muita gente deixa de decidir e passa simplesmente a reagir.”

O analista ressalta, entretanto, que o Circuit Breaker não resolve os problemas econômicos ou políticos responsáveis pela queda. Ele apenas interrompe temporariamente as negociações.

Ibovespa cai 13,88% e dólar sobe mais de 8%



O pregão analisado por Cohen aconteceu após a divulgação do resultado do segundo turno das eleições. Antes da abertura do mercado brasileiro, ativos ligados ao Brasil negociados no exterior já indicavam forte pressão vendedora.

Durante a sessão, o Ibovespa chegou a apresentar queda superior a 17%. No encerramento, os números destacados foram:

  • Ibovespa: aproximadamente 176 mil pontos;

  • Queda diária: 13,88%;

  • Dólar: alta de 8,21%;

  • Máxima do dólar: R$ 5,60;

  • Fechamento do dólar: aproximadamente R$ 5,40;

  • Volume financeiro negociado: R$ 88,6 bilhões.

Para Cohen, a magnitude desses movimentos mostra como mudanças bruscas nas expectativas podem provocar ajustes violentos nos preços dos ativos.

Bancos e estatais lideram as perdas

A queda não atingiu todas as empresas com a mesma intensidade. Segundo os dados apresentados no vídeo do nosso canal, algumas das maiores perdas ocorreram em instituições financeiras e companhias mais sensíveis às expectativas sobre o cenário doméstico.

Entre os destaques:

Empresa

Variação aproximada

B3

-36%

Banco do Brasil

-29%

BTG Pactual

-25%

Bradesco

-22%

A intensidade das perdas reflete o aumento da percepção de risco e a reavaliação das expectativas sobre juros, crédito, atividade econômica e política fiscal. Mas o comportamento de outras empresas contou uma história completamente diferente.

Suzano sobe 10% enquanto o mercado despenca

No mesmo pregão em que o Ibovespa sofreu uma queda histórica, algumas empresas registraram valorização. Entre os exemplos destacados por Cohen:

Empresa

Variação aproximada

Suzano

+10%

WEG

+4%

Vale

+4%

O motivo está, em parte, na exposição dessas companhias ao mercado internacional. Empresas exportadoras ou com receitas relevantes em moeda estrangeira podem se beneficiar da valorização do dólar, embora o resultado dependa também de custos, dívidas, contratos e outros fatores.

A Suzano possui receitas importantes com exportação de celulose. A Vale comercializa minério de ferro internacionalmente. A WEG possui operações e vendas em diferentes países. Com o dólar subindo mais de 8%, o mercado passou a reavaliar o impacto cambial sobre essas companhias.

“O mesmo dólar que ajudou a pressionar parte do mercado brasileiro favoreceu empresas com receitas internacionais.”

Diversificação deixa de ser teoria e aparece no extrato

Para Cohen, esse é o principal aprendizado do episódio. Diversificação costuma ser apresentada como um conceito abstrato. O investidor ouve que não deve concentrar todo o patrimônio em um único ativo, setor ou país.

Mas, em momentos extremos, o efeito aparece de maneira concreta. Uma carteira concentrada exclusivamente em bancos e estatais teria enfrentado perdas muito expressivas naquele pregão.

Já uma carteira que também possuísse empresas exportadoras poderia ter parte dessas perdas compensada pelo desempenho positivo de outros ativos.

“Diversificação não é uma frase bonita de palestra. É o que acontece com seu patrimônio no pior dia do mercado.”

Isso não significa que uma carteira diversificada esteja imune a perdas. Significa que diferentes exposições podem reagir de maneiras distintas ao mesmo acontecimento.

O dia seguinte mostrou outra realidade

Após a segunda-feira de forte queda, o mercado apresentou comportamento diferente na terça-feira. Segundo Cohen:

  • o dólar recuou aproximadamente 1%, para perto de R$ 5,35;

  • o Ibovespa permaneceu relativamente estável, próximo dos 175 mil pontos;

  • o volume negociado caiu de R$ 88,6 bilhões para aproximadamente R$ 49 bilhões.

A diferença entre os dois pregões é importante. O primeiro foi marcado por uma reação intensa ao resultado eleitoral. O segundo apresentou menor movimentação e uma tentativa de estabilização.

“O dia seguinte não foi simplesmente a continuação do desastre. Foi o mercado começando a respirar e separar reação de avaliação.”

A experiência do Joesley Day em 2017

Cohen também relembra um dos episódios mais marcantes de sua trajetória no mercado financeiro. Em maio de 2017, durante a crise política que ficou conhecida como Joesley Day, o mercado brasileiro enfrentou outra sessão de forte turbulência.

As notícias envolvendo o então presidente Michel Temer provocaram intensa pressão sobre os ativos brasileiros e levaram ao acionamento do Circuit Breaker. Na época, Cohen já realizava transmissões ao vivo acompanhando o mercado.

Segundo ele, aproximadamente duas mil pessoas assistiam à sua análise durante o episódio.

“Eu lembro que meu trabalho naquele momento era tentar fazer as pessoas não tomarem decisões precipitadas. Eu sabia o que estava passando pela cabeça de quem via o patrimônio cair na tela.”

Para o analista, viver diferentes crises ajuda a compreender um comportamento recorrente: decisões tomadas sob forte pressão emocional podem produzir consequências financeiras duradouras.

Vender na mínima pode transformar pânico em prejuízo definitivo

Um dos riscos mais importantes durante quedas intensas é a venda motivada exclusivamente pelo medo. Segundo Cohen, investidores que venderam suas posições próximas das mínimas da segunda-feira podem ter realizado perdas expressivas justamente no momento de maior pressão do mercado.

Isso não significa que vender durante uma crise seja sempre errado. Em determinadas situações, reduzir risco ou encerrar uma posição pode ser necessário. O problema está em tomar essa decisão sem planejamento, apenas porque os preços estão caindo rapidamente.

“A decisão sobre como você vai reagir a um dia desses precisa ser tomada antes de ele acontecer, não quando a tela inteira está piscando vermelho.”

Circuit Breaker não significa que a Bolsa quebrou

Outro equívoco frequente é interpretar a interrupção das negociações como um sinal de falha da própria Bolsa. Na realidade, o Circuit Breaker é um mecanismo previsto nas regras de funcionamento do mercado.

Seu acionamento significa que a proteção foi ativada diante de uma queda excepcional. Para Cohen, o investidor precisa distinguir duas coisas. O Circuit Breaker é o mecanismo de proteção.

A causa da queda é o acontecimento que precisa ser analisado. O mecanismo não impede que os preços continuem caindo depois da retomada, mas cria uma pausa em uma sessão de elevada instabilidade.

Três lições para quem investe

O episódio deixa três ensinamentos centrais na avaliação de Rodrigo Cohen.

  1. Primeiro: o Circuit Breaker não é o problema. Ele representa uma ferramenta de proteção do funcionamento do mercado em momentos extremos.

  2. Segundo: o Ibovespa não conta a história de todas as ações. Mesmo quando o índice registra uma queda histórica, determinados setores e empresas podem apresentar desempenho positivo.

  3. Terceiro: gestão de risco precisa existir antes da crise. Diversificação, liquidez, tamanho das posições e tolerância a perdas precisam ser definidos quando o mercado está funcionando normalmente. Não durante uma sessão de pânico.

A próxima crise não tem data marcada

Embora o Circuit Breaker seja raro, sua existência mostra que o mercado financeiro está sujeito a acontecimentos extremos. Crises políticas, choques econômicos, guerras, pandemias e eventos inesperados podem provocar movimentos que ultrapassam rapidamente as expectativas dos investidores.

Para Cohen, o objetivo não é tentar prever exatamente quando acontecerá o próximo episódio. É construir uma estratégia capaz de suportá-lo.

Isso envolve diversificação entre diferentes ativos, setores e classes de investimento, respeitando o perfil e as necessidades de cada pessoa.

Conclusão

A queda de 13,88% do Ibovespa e a disparada de mais de 8% do dólar marcaram um dos episódios de maior volatilidade do mercado brasileiro nos últimos anos, conforme os números apresentados na análise. Mas o dado mais importante talvez esteja na diferença entre as empresas.

Enquanto bancos e instituições ligadas ao mercado doméstico sofreram perdas expressivas, companhias com receitas internacionais registraram valorização. O episódio mostra que não basta acompanhar a direção da Bolsa: é necessário compreender quais riscos estão presentes dentro da carteira.

Para Rodrigo Cohen, a principal lição é simples:

“Você não controla quando o mercado vai entrar em pânico. Mas pode controlar como seu patrimônio estará preparado quando isso acontecer.”

O Circuit Breaker pode interromper as negociações por alguns minutos ou horas. A diversificação e o planejamento, porém, precisam começar muito antes de a Bolsa parar.

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