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Resultado das eleições no Brasil: o mercado vota antes da urna e confere depois

Segunda-feira, 5 de outubro de 2026. Quem abriu o home broker naquela manhã viu uma tela que parecia erro de sistema: o Ibovespa subindo mais de 8% e passando dos 200 mil pontos (Exame.com) pela primeira vez na história, enquanto o dólar escorregava para baixo de R$ 5. Horas antes, o TSE havia fechado o primeiro capítulo do resultado das eleições no Brasil: Flávio Bolsonaro (PL) com 47,03% dos votos válidos e Lula (PT) com 45,16%.
Agora, o detalhe que pouca gente comentou. Naquele dia, o índice chegou aos 206.912 pontos. Dezoito dias depois, no último pregão antes do segundo turno, fechou em 205.082. Nesse intervalo, a bolsa oscilou ao sabor de cada pesquisa e terminou praticamente onde começou. Ou seja, a alta inteira aconteceu em uma única sessão; o resto do mês foi o mercado prendendo a respiração.
Esse é o jeito do mercado funcionar em ano eleitoral: ele vota antes da urna e confere depois. E o resultado das eleições no Brasil, definido no segundo turno de 25 de outubro, é só a primeira de três votações que vão mexer com a sua carteira em um intervalo de dez dias. Em 3 de novembro, os americanos renovam o Congresso nas eleições de meio de mandato. Logo no dia seguinte, 4 de novembro, o Copom anuncia a nova Selic.
Por isso, aqui não tem torcida nem palpite de urna. Tem leitura de cenário, para você chegar ao dia seguinte sabendo exatamente o que observar.
Por que o resultado das eleições no Brasil mexe com o seu dinheiro

O mercado não está escolhendo candidato. Na prática, ele tenta calcular como vai ficar a conta pública nos próximos quatro anos e cada lado da disputa sinaliza um caminho diferente para gastos, dívida e reformas.
Pense no limite do seu cartão. Quando o banco confia que você vai pagar, oferece juros menores; quando desconfia, cobra mais caro. Com um país acontece algo parecido, só que a avaliação é refeita todos os dias por milhares de investidores ao mesmo tempo. Assim, se a percepção é de contas mais organizadas, o risco cai, o real tende a ganhar força, os juros futuros podem recuar e as empresas que dependem de crédito ficam mais atraentes. Por outro lado, se a percepção piora, o filme roda ao contrário.
Além disso, o mercado reage a expectativas e não ao fato consumado. Em 2022, depois de um primeiro turno mais equilibrado do que se esperava, o Ibovespa subiu 5,54% no pregão seguinte e o dólar caiu 4,02% (CNN Brasil). Em 2026, o movimento foi ainda maior. É por isso que o resultado das eleições no Brasil costuma ser precificado em partes: um pedaço antes da urna, outro na noite da apuração e o restante nas semanas seguintes, conforme as promessas viram nomes, números e projetos.
Desta vez, a dose de incerteza é rara. A diferença de 1,87 ponto percentual entre os dois primeiros colocados foi a menor em um primeiro turno presidencial desde a redemocratização. Na reta final, a pesquisa Datafolha divulgada em 22 de outubro apontou empate em 50% dos votos válidos para cada candidato. Não por acaso, várias casas de análise passaram a descrever o momento como binário.
A peça que quase ninguém está olhando: o Congresso americano
O resultado das eleições no Brasil não define sozinho o humor do câmbio em 2027. Washington também vota e vota nove dias depois.
Desde 2025, a relação comercial com os Estados Unidos virou uma variável de risco para os ativos brasileiros. Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte americana derrubou o tarifaço anterior, por entender que o presidente havia extrapolado sua autoridade sem o aval do Congresso. Ainda assim, em julho, a Casa Branca recorreu a outro instrumento legal, uma investigação do Escritório do Representante Comercial (USTR), para aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Itens como carne bovina, café e peças de avião ficaram isentos; no entanto, somada a uma segunda tarifa de 12,5%, parte das exportações pode chegar a 37,5% (Exame.com). As negociações foram reabertas depois de um telefonema entre Lula e Trump em 21 de agosto.
É aí que entram as midterms, as eleições de meio de mandato americanas. Em 3 de novembro, os eleitores renovam as 435 cadeiras da Câmara e 35 das 100 do Senado. Hoje, os republicanos têm maioria apertada nas duas casas: 219 a 214 na Câmara e 53 a 47 no Senado. Segundo a média de pesquisas da RealClearPolitics citada pela agência EFE, os democratas lideram a intenção de voto para a Câmara, com 50,2% contra 41,9%, enquanto a disputa pelo Senado está concentrada em sete estados.
Na prática, um Congresso de oposição não revoga tarifas da noite para o dia, porque o instrumento usado hoje está nas mãos do Executivo. Mesmo assim, ele aumenta o custo político de cada nova medida e limita a agenda da Casa Branca. Em outras palavras: pode frear, mas não necessariamente reverter.

Os quatro cenários possíveis depois do resultado das eleições no Brasil
Cruzando as duas urnas, chegamos a quatro combinações. Nenhuma delas tem previsão. Cada uma é um mapa do que o mercado tende a colocar na balança a partir do dia seguinte.
Cenário 1: Flávio eleito e republicanos no comando do Congresso.
O maior alinhamento político entre os dois governos poderia favorecer negociações comerciais e reduzir parte das tensões diplomáticas. Internamente, a atenção se voltaria à política fiscal, aos nomes da equipe econômica e à capacidade de aprovar reformas. O ponto de atenção é que parte dessa expectativa já aparece nos preços, como mostraram o rali pós-primeiro turno e o dólar abaixo de R$ 5 no último pregão antes da votação. Portanto, o teste passa a ser de entrega.
Cenário 2: Flávio eleito e democratas no comando do Congresso.
O alinhamento com Trump permaneceria, mas o presidente americano enfrentaria mais limitações políticas internas. Isso poderia mudar o ritmo das negociações comerciais, sem garantir alívio imediato nas tarifas. Para o investidor, o foco doméstico seria o mesmo do cenário anterior, com uma camada extra de incerteza vinda de Washington.
Cenário 3: Lula reeleito e republicanos no comando do Congresso.
A continuidade das divergências entre Brasília e Washington tenderia a preservar as incertezas comerciais e diplomáticas. Internamente, a trajetória da dívida pública, o controle dos gastos e a credibilidade fiscal seguiriam determinantes para os ativos brasileiros. Como parte do mercado vinha se posicionando para outro desfecho, a reação inicial pode envolver ajustes; ainda assim, sinais concretos sobre metas fiscais e composição da equipe tendem a pesar mais do que o primeiro pregão.
Cenário 4: Lula reeleito e democratas no comando do Congresso.
Poderia haver mais espaço para diálogo institucional entre os dois países. Por outro lado, Trump continuaria à frente da Casa Branca e do instrumento tarifário. Dessa forma, uma mudança no Legislativo americano não significaria, por si só, uma reversão da política comercial.
Repare que, em todos os quadrantes, a urna muda o ponto de partida. Quem decide para onde o preço vai depois são os fundamentos.
Trade eleitoral x trade pós-eleitoral: o que observar depois da apuração
O trade eleitoral antecipa cenários. O trade pós-eleitoral exige fundamentos. Antes da urna, o mercado compra probabilidade; depois dela, passa a cobrar entrega.
Em outras palavras, seja qual for o resultado das eleições no Brasil, a fase seguinte será de conferência. E essa conferência não acontece em uma noite: ela se espalha pelas semanas seguintes, à medida que estes sinais aparecem.
A equipe econômica. Quem assume a Fazenda, e quanto tempo leva para o nome ser anunciado, diz muito sobre as prioridades do novo governo.
A conta fiscal de 2027. Meta de resultado primário, regras para os gastos e a proposta de orçamento mostram se o discurso de campanha cabe na planilha.
A curva de juros. As taxas dos contratos futuros de prazo mais longo funcionam como termômetro do risco fiscal. Se recuam, o mercado está comprando a tese; se sobem, está desconfiando dela.
O fluxo estrangeiro. A entrada ou saída de capital de fora na B3 revela se o investidor global concorda com a leitura do local.
O Copom de 4 de novembro. A Selic está em 13,75% ao ano desde 16 de setembro e, no fim daquele mês, o Boletim Focus projetava 13,50% para o fim de 2026. No último comunicado, o comitê citou o câmbio depreciado entre os riscos de alta para a inflação. Ou seja, o que o dólar fizer depois da eleição entra direto na conta dos juros.
A tabela tarifária de Washington. O resultado das midterms e os próximos passos da negociação comercial completam o quadro.
Afinal, é nessa transição, entre o susto ou a euforia do primeiro pregão e a confirmação dos fundamentos, que podem surgir algumas das oportunidades mais relevantes para o investidor. Ao mesmo tempo, é ali que aparecem alguns dos erros mais caros, como transformar a carteira inteira em uma aposta sobre um único desfecho.
Para quem já investe com método, esse período funciona como um teste de diversificação. Quanto do seu patrimônio depende de uma única variável doméstica? Como costumamos dizer por aqui: diversificar não é fugir. É amadurecer.
Começando agora? O que a eleição muda (e o que não muda) para você
Investidor avançado: no próximo bloco falamos com você. Agora, se você é iniciante e o seu dinheiro está na poupança, na caixinha do banco ou em um fundo de renda fixa, a notícia que mais mexe com o seu rendimento nas próximas semanas talvez nem seja o resultado das eleições no Brasil. Provavelmente será a decisão do Copom, dez dias depois.
Isso porque boa parte das aplicações conservadoras acompanha a Selic. Já a poupança segue uma regra própria: com a Selic acima de 8,5% ao ano, ela rende 0,5% ao mês mais a TR, bem menos do que a taxa básica atual de 13,75%. Portanto, entender essa diferença costuma fazer mais pelo seu bolso do que tentar adivinhar o placar de uma eleição.
Além disso, vale um alerta. Período eleitoral é temporada alta de promessas do tipo "ganhe dinheiro com o resultado" ou "o ativo que vai explodir depois do segundo turno". Desconfie. Nenhum profissional sério promete retorno, muito menos atrelado a uma votação.
E se você ainda não conseguiu guardar nada, ou se as dívidas estão apertando, a eleição não muda o seu primeiro passo. Ele continua sendo o mesmo: saber quanto entra, quanto sai e montar uma reserva, mesmo que pequena. Quem tem esse colchão atravessa qualquer volatilidade sem precisar mexer no dinheiro no pior momento. Se quiser um roteiro para começar, o curso gratuito Jornada do Investidor mostra o caminho passo a passo, sem linguagem técnica.
Já investe com estratégia? Como testar a carteira contra os quatro cenários
Se você já tem reserva montada e uma carteira diversificada, a pergunta mais útil desta semana muda de lugar. Em vez de "quem vai ganhar?", vale perguntar: "quanto a minha carteira depende de quem ganhar?". A seguir, cinco lentes para fazer essa leitura com frieza.
Faça o teste de estresse dos quatro quadrantes. Pegue a matriz de cenários acima e percorra a carteira classe por classe, imaginando o comportamento de cada posição em cada combinação. Se quase todo o ganho esperado, ou toda a perda possível, se concentra em um único quadrante, a carteira virou uma aposta, mesmo que essa nunca tenha sido a intenção.
Separe o estratégico do tático e escreva os gatilhos antes. A alocação de longo prazo responde a objetivos e prazos; ajustes táticos respondem a cenário. Por isso, ajuda definir de antemão quanto do patrimônio pode ser movimentado por uma tese de curto prazo e o que, de fato, justificaria um rebalanceamento: o nome na Fazenda, a meta fiscal de 2027, um movimento relevante da curva longa. Quem chega à segunda-feira com regras escritas reage a fatos. Quem chega sem elas reage às manchetes.
Olhe para a duration da renda fixa. Prefixados e títulos atrelados à inflação com vencimento longo são os mais sensíveis à curva de juros, para os dois lados. Além disso, com a queda das taxas depois do primeiro turno, quem aplica agora contrata um retorno menor do que estava disponível antes da eleição. Em outras palavras, uma parte do prêmio que o mercado pagava pela incerteza já saiu da mesa.
Mapeie a sensibilidade setorial. Empresas que dependem de crédito e do consumo doméstico tendem a oscilar mais com os juros futuros, já que eles afetam diretamente o fluxo de caixa dessas companhias. Exportadoras com receita relevante nos Estados Unidos, por sua vez, carregam o risco tarifário, que só ganha contorno depois de 3 de novembro e dos próximos passos da negociação. Saber onde está a sua exposição evita sustos em pregões de movimento brusco.
Trate o câmbio como posição e não como torcida. O dólar fechou a R$ 4,99 no último pregão antes da votação, abaixo dos R$ 5,20 que o Boletim Focus projetava para o fim de 2026 no fim de setembro. Esse dado não indica direção, mas mostra quanto do cenário já está nos preços. Assim, a pergunta que importa é estrutural: qual fatia do patrimônio faz sentido manter fora do risco Brasil, independentemente de quem governe?
Por fim, nenhuma dessas lentes substitui a análise do seu caso. Perfil, prazos, tributação e objetivos mudam completamente a resposta, e é justamente esse exercício, feito com a carteira real, que a consultoria da ZERO se propõe a fazer com você.
Atravesse essa transição com quem acompanha o mercado todos os dias
Nos próximos dez dias, as manchetes vão mudar de tom várias vezes. E, para não reagir a cada uma delas, você precisa de contexto, não de mais barulho.
Acompanhe o vídeo completo deste assunto no canal da ZERO Markets Brasil. Além disso, siga a gente no Instagram, no YouTube e no LinkedIn para acompanhar a leitura dos nossos analistas do pregão pós-eleição até o comunicado do Copom. E, se você quer entender como esse novo cenário conversa com os seus objetivos, agende uma consulta clicando aqui.
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As opiniões aqui expressas refletem o entendimento pessoal e independente do Diretor de Análise MARCOS FELIPE MARTINS DA SILVA PRAÇA, f, inclusive em relação à pessoa jurídica à qual está vinculado. Este relatório não constitui oferta nem garantia de resultado, e o investidor é o único responsável por suas decisões. A Zero Markets Brasil Consultoria e Análise de Valores Mobiliários LTDA, CNPJ 56.964.932/0001-09, credenciada perante a APIMEC Brasil, declara, nos termos do art. 22 da Resolução CVM nº 20/2021, não haver situação que afete a imparcialidade deste relatório ou configure conflito de interesses, ressalvado o que, se existente, será divulgado no próprio relatório.

