O mercado nunca muda, porque está sempre mudando
“O mercado é o mesmo desde que foi criado. Justamente porque ele está em constante mudança.”
Essa frase não é minha, mas explica melhor do que qualquer outra por que tanta gente se frustra com o mercado, e por que poucos conseguem navegar bem pelos ciclos.
O mercado não é estático. Ele é adaptativo. Ele reage a juros, política, guerra, comportamento humano, medo, ganância, expectativa e narrativa. E quem tenta tratá-lo como algo previsível, linear ou controlável costuma pagar caro por isso.
Quando você ganha dinheiro no mercado, ótimo. Quando não ganha, você tem duas opções:
ou culpa o mercado ou entende o que ele está tentando te ensinar.
O cenário atual: transição, não confusão
Início de 2026. Muita gente chama esse momento de “confuso”. Eu discordo. O que estamos vivendo é um período clássico de transição de ciclo.
Ano eleitoral no Brasil. Juros elevados, mas com sinalização clara de possível queda.
Dólar globalmente mais fraco. Tensões geopolíticas pressionando commodities. Bolsa brasileira renovando máximas históricas. Ativos reais e alternativos voltando ao radar.
Isso não é ruído. Isso é macro em movimento.

[GRÁFICO 1: Índice DXY (dólar global) – timeframe mensal, mostrando queda desde 2022]
Juros no Brasil: o primeiro sinal de virada
O Copom manteve a Selic em 15% ao ano. Decisão unânime. Juros altos são eficientes para conter a inflação, mas têm um custo estrutural claro: dinheiro caro, crédito travado, investimento produtivo menor e crescimento limitado.
É bom para quem vive de renda fixa. É ruim para quem empreende, investe e gera empregos.
O ponto mais importante dessa reunião não foi a taxa em si, mas o forward guidance. O Banco Central sinalizou que, já na próxima reunião, em março, pode iniciar um ciclo de cortes, possivelmente começando com 0,5 ponto percentual. Mercados se movem pela direção, não pelo ponto exato. Quem olha só para preço vê confusão. Quem entende o contexto começa a enxergar assimetria.

[GRÁFICO 2: Expectativa de juros mostrando início de queda]
Estados Unidos: juros, política e cautela
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve os juros na faixa de 3,5% a 3,75%.
A decisão não foi unânime. Dois diretores votaram por corte. A maioria preferiu esperar.
Jerome Powell deixou claro que, após movimentos recentes, agora é hora de observar a inflação antes de agir novamente.
Tudo isso acontece sob pressão política, com Donald Trump defendendo publicamente juros mais baixos e demonstrando conforto com a desvalorização do dólar.
O mercado, por enquanto, aposta na cautela.

[GRÁFICO 3: CME FedWatch – probabilidades para a próxima decisão]
Bolsa brasileira em máxima histórica não é acaso
A Bolsa brasileira vem renovando máximas históricas.Isso não acontece por euforia vazia.
Expectativa de queda de juros, fluxo estrangeiro, busca por risco em mercados emergentes e valuation relativo ainda atrativo explicam boa parte desse movimento.
Isso não significa alta infinita. Significa reposicionamento de capital. Quem entende isso deixa de operar manchete e começa a operar contexto.

[GRÁFICO 4: Ibovespa em timeframe semanal, destacando rompimento de topo histórico]
Commodities e ativos alternativos também falam
O petróleo segue extremamente sensível a qualquer tensão geopolítica relevante, seja no Oriente Médio, no Leste Europeu ou em outras regiões-chave de produção e escoamento de commodities energéticas. Em um cenário global de incerteza, qualquer risco percebido a oferta, como conflitos armados, ataques a infraestrutura, sanções ou bloqueios em rotas estratégicas, tende a ser rapidamente precificado pelos investidores. Isso ocorre porque o mercado futuro de petróleo é dominado por expectativas, e não apenas por dados consolidados de produção e consumo.

[GRÁFICO 5: Petróleo WTI com marcações de eventos geopolíticos]
O Bitcoin, por sua vez, continua sendo um ativo de alta volatilidade no curto prazo, sujeito a movimentos rápidos de preço tanto por fatores macroeconômicos quanto por mudanças de humor do mercado cripto como um todo. Oscilações diárias relevantes ainda são comuns, impulsionadas por fluxos de grandes investidores, atualizações regulatórias, decisões de política monetária e novidades ligadas à adoção institucional. Esse comportamento reforça a necessidade de gestão de risco, posição proporcional ao perfil do investidor e horizonte de investimento bem definido.

[GRÁFICO 6: Bitcoin em timeframe mensal]
Entender macro não é prever o futuro
Eu sou engenheiro de formação e atuo no mercado financeiro desde 2009. Quando passei a entender política monetária, ciclos econômicos e comportamento institucional, minha relação com o mercado mudou completamente.
Você para de reagir. E começa a se posicionar. O mercado não premia quem tenta adivinhar.
Ele premia quem entende onde está pisando.
O mercado nunca muda. Porque está sempre mudando. Quem luta contra isso sofre. Quem aceita isso, estuda. Quem entende isso, se posiciona.



