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Risco patrimonial: empresários podem estar comprometendo seus bens

O empresário brasileiro costuma ouvir que precisa diversificar seus investimentos, evitar perigos excessivos e não colocar todos os ovos na mesma cesta. Mas existe uma contradição pouco discutida: muitos donos de empresas mantêm praticamente todo o capital concentrado justamente no próprio negócio, assumindo um alto risco patrimonial.
Enquanto a Bolsa brasileira renova máximas históricas e atrai a atenção dos investidores, milhares de empresários acompanham o movimento de fora. Não necessariamente por falta de interesse, mas porque grande parte dos recursos disponíveis estão comprometidos com a operação da empresa.
Neste novo conteúdo da Zero Markets Brasil, o trader, empresário e analista convidado Rodrigo Cohen chama atenção para esse risco patrimonial frequentemente ignorado pelos empreendedores: a concentração simultânea dos bens, da renda e do futuro financeiro da família em uma única empresa.
“Se um investidor coloca 100% do dinheiro em uma única ação, todo mundo diz que ele é irresponsável. Mas quando um empresário assume esse risco patrimonial colocando tudo no próprio negócio, muita gente chama isso de dedicação.”
O empresário já investe e assume o maior risco patrimonial de sua carteira
Para Cohen, a primeira mudança necessária é entender que o próprio negócio também representa um investimento.
Uma empresa possui valor econômico, pode gerar lucro e crescer ao longo do tempo. Entretanto, diferentemente de uma ação negociada na Bolsa, não possui liquidez imediata.
O empresário não consegue simplesmente vender 20% ou 30% da companhia em poucos minutos caso precise de dinheiro. Além disso, seu patrimônio normalmente está exposto a uma série de fatores simultâneos:
desempenho da economia brasileira;
condições do setor em que atua;
disponibilidade de crédito;
capacidade de pagamento dos clientes;
concorrência;
mudanças regulatórias;
e sua própria capacidade de continuar trabalhando.
“Você tem um ativo que depende de um setor, de um país, de uma moeda e, muitas vezes, de você mesmo. Isso não é diversificação.”
Quando a empresa quebra, o empresário pode perder duas vezes

Um dos pontos centrais da análise é a diferença entre o risco de um funcionário e o risco do proprietário. Quando uma empresa enfrenta dificuldades graves, seus funcionários podem perder o emprego e, consequentemente, a fonte de renda.
Já o empresário que concentra todo o patrimônio no negócio pode enfrentar dois problemas ao mesmo tempo. Primeiro, perde a renda mensal gerada pela operação. Segundo, pode perder parte significativa do patrimônio acumulado ao longo de anos ou décadas.
“O funcionário de uma empresa que quebra perde o emprego. O empresário pode perder o emprego e a poupança de uma vida inteira no mesmo dia.”
Segundo Cohen, essa concentração representa um risco patrimonial ainda maior quando o negócio depende diretamente da presença do proprietário para funcionar.
Os cinco riscos escondidos no patrimônio do empresário
Para explicar o problema, Cohen identifica cinco camadas de concentração que podem existir simultaneamente na vida financeira de um empreendedor.
1. Risco de país
Quando toda a operação está no Brasil, uma deterioração da economia pode atingir clientes, fornecedores, bancos e a própria empresa ao mesmo tempo. Isso significa que diversos fatores aparentemente independentes podem sofrer juntos.
2. Risco cambial
Empresários que faturam, gastam e mantêm todo o patrimônio em reais ficam concentrados em uma única moeda. Uma desvalorização significativa do real pode reduzir o poder de compra internacional desse patrimônio, especialmente em despesas e compromissos vinculados ao dólar.
3. Risco setorial
Mudanças tecnológicas, novos concorrentes ou alterações no comportamento dos consumidores podem comprometer um setor inteiro. Se todo o patrimônio estiver ligado àquela atividade, o empresário terá poucas alternativas para compensar as perdas.
4. Falta de liquidez
Uma empresa pode valer milhões de reais no papel e, ainda assim, ser difícil de vender. Negociações societárias podem levar meses ou anos. Quando a venda ocorre por necessidade financeira, o empresário pode ser obrigado a aceitar um preço inferior ao valor que considera justo.
5. Dependência do próprio empresário
Para Cohen, essa é uma das camadas mais perigosas. Em muitas empresas, o proprietário concentra decisões, relacionamentos comerciais, conhecimento técnico e gestão. Se ele precisar se afastar por motivos pessoais ou de saúde, o negócio pode sofrer diretamente.
“Soma essas cinco camadas. Você não tem uma carteira diversificada. Tem praticamente uma aposta inteira em um número só.”
Reinvestir no próprio negócio pode deixar de ser uma boa decisão?

Cohen ressalta que não está defendendo que empresários deixem de reinvestir em suas empresas. Pelo contrário. O reinvestimento é frequentemente necessário para financiar expansão, contratar profissionais, desenvolver produtos e aumentar a capacidade de geração de receita.
O problema aparece quando o empreendedor passa a considerar que todo dinheiro disponível precisa obrigatoriamente retornar à operação, afetando o risco patrimonial.
Segundo Cohen, existe um ponto em que o capital adicional deixa de representar apenas uma oportunidade de crescimento e passa a aumentar excessivamente a exposição ao mesmo risco.
“Tem um momento em que colocar mais dinheiro no próprio negócio deixa de ser investimento e começa a virar acúmulo de risco.”
A dificuldade está justamente em reconhecer esse momento.
O sucesso da empresa pode esconder o problema
Um dos aspectos mais curiosos dessa concentração é que ela pode ocorrer mesmo quando a empresa está indo muito bem. O empresário conhece seu mercado, domina a operação e frequentemente consegue retornos superiores aos oferecidos por investimentos financeiros tradicionais.
Isso cria um incentivo permanente para reinvestir. Mas, segundo Cohen, o retorno potencial não pode ser a única variável considerada. Existe uma segunda pergunta: O que acontece com o patrimônio se alguma coisa der errado?
“A empresa pode estar indo muito bem e, ainda assim, representar um risco excessivo para quem concentra tudo nela. As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.”
O orgulho de construir uma empresa também pode atrapalhar
Existe ainda um componente psicológico. Empresários frequentemente associam o próprio patrimônio ao negócio que construíram. A empresa representa anos de trabalho, decisões difíceis, sacrifícios e conquistas.
Por isso, retirar parte dos lucros para investir fora da operação pode gerar a sensação de estar deixando de acreditar no próprio empreendimento.
Para Cohen, essa interpretação é equivocada. Diversificar o patrimônio pessoal não significa apostar contra a empresa. Significa reconhecer que o futuro financeiro da família não deveria depender exclusivamente do sucesso de um único negócio.
Capital da empresa e patrimônio da família são coisas diferentes
Essa é a principal mudança que Cohen afirma ter adotado na própria vida financeira. Ele passou a separar claramente dois grupos de recursos:
O capital da empresa, destinado a financiar a operação, manter a liquidez necessária e permitir crescimento.
O patrimônio pessoal e familiar, destinado à segurança financeira, à independência e à construção de um legado.
Embora os dois possam se relacionar, eles possuem objetivos diferentes.
“O dinheiro da empresa existe para crescer. O patrimônio da minha família existe para que ela não dependa da empresa e nem de mim.”
Para Cohen, essa separação ajuda o empresário a tomar decisões mais racionais sobre reinvestimento e diversificação.
“Ganhou? Saca”: entenda isso

Uma das práticas pessoais destacadas pelo analista é retirar da empresa o capital excedente que não precisa permanecer na operação. A regra, que Cohen resume na expressão “ganhou, saca”, não significa retirar indiscriminadamente o caixa necessário ao funcionamento do negócio.
A ideia é identificar recursos que realmente estejam disponíveis depois de consideradas as necessidades operacionais, obrigações e investimentos planejados. Esses valores podem ser destinados à construção de patrimônio fora da empresa. Segundo Cohen, existe também uma razão comportamental para essa decisão.
“Dinheiro parado na conta da empresa sempre encontra um destino. E esse destino, muitas vezes, é aumentar ainda mais a exposição ao mesmo negócio.”
Ao separar o excedente, o empresário reduz a tentação de reinvestir automaticamente todos os recursos disponíveis.
Diversificar não significa abandonar a empresa
O objetivo não é trocar o risco empresarial por uma carteira de investimentos igualmente concentrada. Para Cohen, a diversificação precisa considerar diferentes fontes de risco. Dependendo do perfil e dos objetivos do empresário, o patrimônio pessoal pode incluir ativos de diferentes classes, setores, moedas e regiões geográficas.
O importante é que nem todos dependem dos mesmos fatores que determinam o desempenho da empresa. Uma carteira financeira concentrada apenas em ações do mesmo setor em que o empreendedor atua, por exemplo, pode continuar excessivamente exposta ao mesmo ciclo econômico.
Diversificar não é simplesmente comprar ativos diferentes. É reduzir a dependência dos mesmos riscos.
A pergunta dos seis meses que todo empresário deveria responder
Para Cohen, existe um exercício simples que ajuda a identificar o nível de concentração patrimonial. Imagine que sua empresa precise interromper completamente as atividades por seis meses.
Sem faturamento. Sem distribuição de lucros. Sem retiradas. A pergunta é: Sua família conseguiria manter seu padrão de vida e cumprir seus compromissos financeiros durante esse período sem depender do caixa da empresa?
Se a resposta for negativa, existe um sinal de alerta.
“Se o seu negócio parasse hoje por seis meses, sua casa continuaria de pé? Se a resposta for não, talvez você não tenha um problema de investimento. Você tem um problema de concentração patrimonial.”
O exercício não determina sozinho quanto dinheiro deve ser mantido fora da empresa, mas ajuda a revelar uma vulnerabilidade que pode passar despercebida durante períodos de crescimento.
O melhor momento para diversificar pode ser quando tudo está funcionando
Um dos maiores erros, segundo Cohen, é esperar que a empresa enfrente dificuldades para começar a construir reservas pessoais. Quando o negócio entra em crise, normalmente acontece o contrário.
O empresário passa a colocar mais recursos na operação para pagar despesas, sustentar o capital de giro ou tentar recuperar o faturamento.
Por isso, o período de prosperidade pode ser justamente o melhor momento para organizar a separação entre patrimônio pessoal e empresarial.
“Quando aperta, o empresário normalmente não tira dinheiro da empresa. Ele coloca. Por isso, a hora de construir patrimônio fora dela é enquanto o negócio está indo bem.”
Como mitigar o risco patrimonial no planejamento de longo prazo
Embora o Ibovespa tenha renovado recordes recentemente, Cohen ressalta que a decisão de diversificar não deveria depender de uma oportunidade pontual na Bolsa. O mercado pode continuar subindo ou começar a cair nos próximos meses, pois essa incerteza faz parte dos investimentos. A discussão mais importante é estrutural: quanto do patrimônio familiar está exposto ao desempenho de um único negócio? Para Cohen, construir patrimônio fora da empresa não deve ser apenas uma tentativa de aproveitar uma alta do mercado, mas sim parte de um planejamento financeiro de longo prazo para evitar um alto risco patrimonial.
O empresário costuma dedicar anos à construção de um negócio. Reinveste lucros, assume riscos, contrata pessoas, enfrenta crises e trabalha para aumentar o valor da empresa. Mas, nesse processo, pode acabar concentrando toda a própria segurança financeira justamente no ativo que exige mais dedicação e apresenta perigos difíceis de controlar. Para Rodrigo Cohen, o desafio é compreender que construir uma empresa de sucesso e mitigar o risco patrimonial da família são objetivos complementares, mas não idênticos.
Uma empresa pode continuar crescendo enquanto seu proprietário desenvolve reservas e investimentos independentes da operação. Essa separação não representa falta de confiança no negócio, representa planejamento.
Confira o vídeo completo desse assunto no canal da ZERO Markets Brasil no Youtube.
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As opiniões aqui expressas refletem o entendimento pessoal e independente do Diretor de Análise RODRIGO SANTOS COHEN, CNPI-T (6520), inclusive em relação à pessoa jurídica à qual está vinculado. Este relatório não constitui oferta nem garantia de resultado, e o investidor é o único responsável por suas decisões. A Zero Markets Brasil Consultoria e Análise de Valores Mobiliários LTDA, CNPJ 56.964.932/0001-09, credenciada perante a APIMEC Brasil, declara, nos termos do art. 22 da Resolução CVM nº 20/2021, não haver situação que afete a imparcialidade deste relatório ou configure conflito de interesses, ressalvado o que, se existente, será divulgado no próprio relatório.

