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IPCA-15 acima do esperado, guerra no Oriente Médio e corte de juros no Brasil mantêm mercado em estado de atenção, analisa Rodrigo Cohen

O cenário econômico segue pressionado por uma combinação delicada de fatores internos e externos. No Brasil, o IPCA-15 de março veio acima das expectativas, mostrando que a inflação ainda incomoda. No exterior, a guerra no Oriente Médio entra em seu 26º dia, sem avanço concreto nas negociações de paz, mantendo a pressão sobre o petróleo e aumentando a incerteza global.
Para Rodrigo Cohen, trader profissional e analista convidado da Zero Markets Brasil, o momento exige leitura cuidadosa de contexto, porque o mercado hoje depende menos de convicções absolutas e mais da capacidade de adaptação.
“Não é um cenário em que o investidor pode operar no automático. Inflação, juros, petróleo, guerra e crescimento estão todos conectados.”
IPCA-15 desacelera, mas vem acima do esperado
O primeiro destaque da semana foi a divulgação do IPCA-15, prévia da inflação oficial brasileira. O índice desacelerou em relação ao mês anterior, passando de 0,84% em fevereiro para 0,44% em março, mas ainda assim veio acima do esperado pelo mercado.
No acumulado de 12 meses, a inflação também perdeu força em relação ao mês anterior, mas continua acima da meta oficial de 3%.

Segundo Cohen, o dado traz uma mensagem importante: a inflação melhorou, mas ainda não foi resolvida.
“O Banco Central até conseguiu algum alívio, mas não o suficiente para agir com tranquilidade. Ainda existe pressão, principalmente em itens sensíveis ao dia a dia da população.”
O analista lembra que o início do ano costuma sofrer impacto sazonal por conta de despesas ligadas à educação, como material escolar e mensalidades, mas mesmo com esse efeito menor em março, a inflação continuou pressionada.
Guerra no Oriente Médio segue sem solução clara e pressiona petróleo
No cenário internacional, o foco continua sendo o conflito entre Israel, Estados Unidos e Irã, que já ultrapassa três semanas e meia de duração.
De um lado, a Casa Branca afirmou que as conversas recentes foram produtivas. De outro, admitiu que nenhuma negociação de paz deve ser tratada como oficial neste momento. Enquanto isso, o Irã segue endurecendo o tom e aumentando a pressão sobre a navegação no Estreito de Hormuz, uma das rotas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo.

Segundo Cohen, o conflito surpreendeu pela resistência iraniana.
“Havia uma leitura no mercado de que a guerra poderia ser curta, mas o Irã mostrou mais capacidade de reação do que muita gente esperava.”
A principal consequência econômica imediata é a pressão sobre o petróleo. O receio de interrupções logísticas, ataques a navios ou novas restrições de circulação mantém o mercado de energia em alerta.
E isso afeta diretamente o resto do mundo.
Se o petróleo sobe:
sobe o custo de combustíveis;
sobe o custo de transporte;
sobe o custo de produção;
e a inflação volta a pressionar os bancos centrais.
Relatório de Política Monetária reforça cautela do Banco Central
Outro ponto importante da semana foi a divulgação do Relatório de Política Monetária (RPM) do Banco Central brasileiro.

Na leitura de Cohen, três mensagens principais aparecem no documento:
1. A inflação caiu, mas segue acima da meta
O Banco Central reconhece melhora, mas não vê o problema como encerrado.
2. A economia brasileira começou a desacelerar
Depois de um período de crescimento mais forte, a atividade perdeu parte do ritmo. A projeção para 2026 é mais fraca do que a dos anos anteriores.
3. O mercado de trabalho continua forte
Mesmo com a desaceleração da economia, o emprego segue resiliente e os salários continuam sustentando a demanda, o que dificulta uma queda mais rápida da inflação de serviços.
Para Cohen, esse é justamente o ponto de maior complexidade do momento.
“O Banco Central está tentando fazer duas coisas ao mesmo tempo: não deixar a inflação escapar e, ao mesmo tempo, evitar travar demais a economia.”
Corte de juros veio, mas o caminho à frente continua indefinido
Com esse pano de fundo, o Banco Central reduziu a Selic de 15% para 14,75% ao ano. A decisão já era amplamente esperada pelo mercado.
O problema não está no corte em si. Está no que vem depois.
Segundo Cohen, a dúvida agora é se o Banco Central conseguirá continuar cortando juros nas próximas reuniões ou se o cenário global vai obrigar uma postura mais cautelosa.
Se a inflação continuar cedendo, o espaço para novos cortes aumenta.
Mas se:
o petróleo seguir pressionado,
a guerra se prolongar,
ou a inflação voltar a ganhar força,
o Banco Central pode interromper esse movimento ou até rever a estratégia.
“O mercado queria uma resposta clara. O que recebeu foi um recado de cautela.”
Lula projeta Brasil entre as maiores economias do mundo
No campo político e econômico, o presidente Lula afirmou que o Brasil pode se tornar a quinta ou sexta maior economia do mundo. Hoje, o país aparece entre a 10ª e a 11ª posição, dependendo da metodologia utilizada.

A argumentação do governo se apoia em vantagens estruturais relevantes:
abundância de água doce;
presença de minerais críticos;
terras raras;
e a maior floresta tropical do planeta.
Para Cohen, o Brasil de fato tem ativos estratégicos importantes. O desafio, como sempre, está em transformar potencial em crescimento consistente.
Americanas avança para encerrar recuperação judicial
Entre as notícias corporativas, a Americanas informou ter protocolado pedido formal para encerrar sua recuperação judicial, após cumprir as obrigações previstas no plano.
A companhia também reduziu seu prejuízo em 92,5% no quarto trimestre de 2025, para R$ 44 milhões.

Para o mercado, a notícia é simbólica porque mostra uma tentativa concreta de retomada após uma das maiores crises corporativas recentes do país.
JBS reforça presença global com lucro bilionário
Outro destaque veio da JBS, que registrou lucro líquido de US$ 2 bilhões em 2025, ou US$ 1,89 por ação, com crescimento de 15% em relação ao ano anterior.
A receita líquida anual da companhia chegou a US$ 86 bilhões, reforçando a dimensão global da operação.
Na avaliação de Cohen, o resultado mostra a força de uma empresa brasileira que conseguiu construir presença internacional relevante e consistente.
O que esperar das próximas semanas
A próxima semana traz indicadores importantes, com destaque para:
ADP nos Estados Unidos, que mede a criação de empregos no setor privado;
PMI industrial no Brasil e nos EUA;
e, logo em seguida, o Payroll, principal relatório de emprego americano.
Esses dados serão fundamentais para o mercado entender se a economia global está perdendo tração ou se continua forte o suficiente para manter juros elevados por mais tempo.
Conclusão
Para Rodrigo Cohen, o momento é de transição e sensibilidade.
A inflação brasileira ainda não está plenamente resolvida. A economia começou a desacelerar. O mercado de trabalho segue forte. E o cenário internacional continua altamente dependente da evolução da guerra e do comportamento do petróleo.
Nesse ambiente, a leitura mais prudente é clara:
“Não é hora de arrogância. É hora de cautela, diversificação e atenção aos próximos dados.”
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